Dizem que o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor. A música de Janita Salomé parece entrar no mesmo sistema de amadurecimento, apresentando-nos este ano o seu mais recente trabalho "Vinho dos amantes", sonoramente coerente e bem estruturado. Nele somos convidados a sermos partícipes dum banquete etílico de melodias rurais e urbanas, que tanto nos situam no sossego alentejano do Redondo, vila natal do músico e compositor, como recordam a aridez do norte de África ou geografia urbana de Coimbra.
De feito, as referências ao vinho e aos seus efeitos são o eixo central deste disco, que se assume como uma ode à vida, de preferência embriagada pela poesia, virtude e amor, transformando cada segundo e sentido numa intensidade plena de emoções, que o vinho agudiza como unha hipérbole natural.
E é também de poesia que este disco é feito, reunindo palavras delicadas e sarcásticas em torno do "néctar dos deuses", escritas por poetas sempre actuais: Camilo Pessanha, Hélia Correia, José Jorge Letria, Charles Baudelaire e António Aleixo, entre outros.
Por outro lado, este disco é um explorar de novas sonoridades, o humor e a melancolia portugueses, mas sem perder a musicalidade que mais e melhor o define, ou seja, o jeito próprio de cantar do Alentejo e as evocações arábico-andaluzes. Aliás, é de referir que Janita Salomé vem desenvolvendo um importante labor de recolha da tradição musical alentejana, plasmada na sua vasta carreira musical, desde Melro (1980), passando por Cantar ao sol (1983), Lavrar em teu peito (1985), Olho de fogo (1987), A cantar à lua (1991), Raiano (1994), Vozes do sul (2000) e Tão pouco e tanto (2003), tendo colaborado com destacáveis músicos portugueses, tais como Zeca Afonso, Júlio Pereira, José Mário Branco e Brigada Victor Jara, entre outros, aclamado pela crítica e ganhador de vários prémios.
Venha vinho diz o dito popular, e venham mais discos do Janita!
Sara Louraço Vidal, 2007
Alinhamento
1. Maçãs de Zagora
2. A Estrela do Vinho
3. Escadinhas do Alto
4. Embriagai-vos
5. O Vinho dos Amantes
6. Fragmentos
7. No Banquete
8. Ode ao Vinho
9. Quadras
10. O Mapa Errante
11. Caminho III
Produção musical: Janita Salomé e Mário Delgado
Produção executiva: Janita Salomé e Vachier&Associados
Gravado, misturado e masterizado por Artur David no Estúdio Praça das Flores entre Maio e Agosto de 2006.
“Disco de Cabeceira” é um trabalho de cuidado com o sentir e o cantar português. Inteiramente composto com letras do poeta Valter Hugo Mãe (à excepção de uma parceria com Ana Deus), este é um registo para nos acompanhar longo tempo, fielmente, com o gosto que se dá a um livro que mantemos entusiasticamente para leitura cuidada.
Entre o romantismo delicado e o rock divertido e enérgico, a paleta deste trabalho cumpre com frescura um atractivo e moderno momento. Num espectro abrangente, onde encontramos verdadeiros hinos, como “À Força da Nossa Voz” ou ?Sempre a começar?, canções de amor, como “(Diz) A Verdade” e “Espero que você parta o seu coração” também, ou o pop irónico de “Jack, O Estripador” e “A virgindade da Isabel”, Disco de Cabeceira é composto por doze temas que dificilmente passarão despercebidos do grande público.
A estreia a solo do músico vilacondense Paulo Praça faz-se no seu tempo de maturidade estética e no auge das suas capacidades interpretativas.
Após um já longo percurso como elemento fundador dos Turbo Junkie, Grace ou Plaza, ou como convidado em projectos de renome, como é o caso dos GNR, Paulo Praça aposta no seu peculiar modo de compôr e cantar em português, assumindo uma desenvoltura muito nova, alcançando um pop-rock ágil e seguro que certamente marcará muita gente.
(diz) a verdade paulo praça
disco de cabeceira
som livre, 2007
a princesa que não quis ser salva paulo praça
disco de cabeceira
som livre, 2007
Teresa Salgueiro decidiu sair dos Madredeus para se dedicar aos seus projectos a solo, mas mantém-se disponível para colaborações futuras com o grupo português, afirmou hoje a cantora à agência Lusa.
«Foi uma decisão ponderada e tomada em mútuo acordo com o grupo», sublinhou Teresa Salgueiro, recusando falar no fim do projecto, surgido há 22 anos e que se afirmou como um dos mais importantes da música portuguesa.
«A partir deste momento todas as decisões sobre o grupo são do Pedro [Ayres Magalhães], mas de futuro mantenho-me ao dispor para eventualmente cantar, dentro da minha disponibilidade e da conveniência do grupo», assinalou.
Teresa Salgueiro decide sair por não ter disponiblidade para se dedicar a tempo inteiro aos Madredeus, quando está envolvida em três projectos diferentes.
«Os Madredeus são independentes e exigiam uma grande entrega e disponilidadade que hoje não posso dar», disse.
Teresa Salgueiro anuncia a sua saída dos Madredeus numa altura em que intensifica a sua agenda de concertos de promoção dos dois álbuns que editou em nome próprio, "Você e Eu" e "La Serena".
Além destes dois projectos, Teresa Salgueiro é ainda uma das solistas do álbum "Silence, Night and Dreams", do compositor polaco Zbigniew Preisner, e integra o elenco do concerto de apresentação ao vivo, domingo, no Barbican Center Hall, em Londres, com a participação da Orquestra Sinfónica de Londres.
Este anúncio de Teresa Salgueiro surge também no final de um ano sabático, que os Madredeus iniciaram em 2006.
Em Outubro do ano passado, Pedro Ayres Magalhães, fundador e principal compositor dos Madredeus, anunciou que o grupo iria parar por um ano «para pensar e reorganizar» as suas actuações.
Na altura, o músico garantia que o grupo não iria acabar, mas apenas reduzir o ritmo de actuações e edições discográficas que mantinha desde os anos 1990.
Apesar da saída dos Madredeus, Teresa Salgueiro diz que ficará «sempre ligada» ao grupo que a deu a conhecer nos anos 1980.
«Estou muito grata ao grupo por ter participado nesta extraordinária aventura que foram os Madredeus», subinhou.
César Prata apresenta-nos o seu novo projecto "Rotunda", que podemos acompanhar e escutar no seu blog.
Poderemos sair ou entrar onde quisermos, ou mesmo continuar às voltas; quer procurando a melhor saída, quer descobrindo coisas sempre novas.
Para já ficam dois temas: Comboio (a vapor) e Ó, ó, menino, ó .
->->->->->-> Comboio (a vapor) [César Prata]
César Prata: bandolim eléctrico, programações, samples e viola braguesa.
Saca-Sons [participação (muito) especial]: adufes
->->->->->-> Ó, ó, menino, ó (Canção de embalar) - Nozedo de Cima [Trás-os-Montes]
César Prata: bandolim, flauta de bisel contralto, fauta de bisel sopranino, programações e voz.
Hoje foi um dia nostálgico. Ou melhor, na verdade, uma manhã...
acordei cedinho para resistir-me ao sedentarismo diário, e lá fui eu ao ginásio combater a preguiça e algumas gorduras acumuladas. até aqui nada de especial, bem pelo contrário. o engraçado foi à saída das instalações, quando deparo-me com uma sessão de pilates, ou algo parecido, ao som da "Canção do Mar" na voz da Dulce Pontes. Confesso que foi uma sensação estranha, porque não é propriamente um cenário que idealizamos para ouvir um fado. Mas fiquei contente e com uma pontinha de orgulho nacionalista. E se isto não bastava, ao virar da esquina passo por uma loja, que eu não percebi de quê, que vende bandeiras de Portugal por 4 euros!!!
Tendo em conta que tudo isto ocorreu na Corunha, foi um pouco surpreendente...
Xaile são as meninas revelação do momento com a sua fusão folk-pop, ou não fossem elas também umas carinhas larocas, com uma promoção discográfica e mediática de fazer inveja a muitos grupos veteranos.
o mérito de fazerem algo inédito em Portugal ninguém lhes pode tirar, mas esperemos que não se percam na "emoção do momento", nem nas modas temporárias...
Com estreia marcada para dia 4 de Outubro, o filme Fados, do realizador espanhol Carlos Saura, foi hoje apresentado à imprensa no Museu do Fado, em Lisboa. O projecto, cuja gestação começou há cinco anos, está finalmente concluído e teve a sua estreia mundial na semana passada, no Festival Internacional de Cinema de Toronto.
No final da exibição e acompanhado pelos fadistas Carlos do Carmo e Marisa, Saura foi presenteado com uma ovação que durou cerca de cinco minutos.
Depois de Flamenco (1995) e Tango (1998) – nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro -, Fados representa mais uma incursão do cineasta pelo mundo da música e, neste caso, um olhar especial sobre o estilo que melhor representa a cultura portuguesa.
São vários os artistas que participam em Fados. Mas nem só fadistas e nem só de portugueses é feita esta declaração de amor de Saura à canção de Lisboa. Além de nomes inevitáveis como Camané, Carlos do Carmo, Mariza, Vicente da Câmara ou Argentina Santos há outros que podem surpreender: Caetano Veloso interpreta Estranha Forma de Vida e a mexicana Lila Downs dá voz a Foi na Travessa da Palha. Também Chico Buarque, Lura, Rui Veloso ou os hip hopers NBC e SP & Wilson emprestam voz e sonoridades a Fados. Carlos do Carmo e Rui Vieira Nery desempenharam o papel de consultores musicais.
A ante-estreia em Portugal está marcada para dia 26 no Cinema São Jorge, em Lisboa, e o filme está já vendido para 20 países. Em agenda estão também importantes exibições em diversos festivais de cinema e várias cidades, um pouco por todo o mundo.
Durante a apresentação à imprensa Ivan Dias, pai da ideia original e responsável pela produção artística, explicou que «não foram precisos mais do que cinco minutos para interessar Carlos Saura pelo projecto» e congratulou-se pelo resultado final, sublinhando que «quem vê o filme sente orgulho em ser português».
José Amaral Lopes, presidente da EGEAC, empresa responsável pela gestão de equipamentos e animação cultural da cidade de Lisboa, falou numa «aposta ganha» e relembrou que foram muitas as críticas quando a EGEAC contribui com um milhão de euros para a concretização do projecto.
Também José Eduardo Moniz – a TVI é uma das co-produtoras em conjunto com a EGEAC e o Turismo de Portugal – esteve presente e manifestou o seu contentamento pela participação da estação de Queluz no filme de Saura. «Tendo em conta o que se escreve sobre o perfil do canal, para muitos deve ter sido uma surpresa a TVI apostar neste projecto», começou por afirmar Moniz. «Mas somos um canal português e queremos estar de mãos dadas com o que é português», acrescentou.
Fados poderá desempenhar, assim acredita João Teixeira, administrador-executivo da EMI Portugal, um papel decisivo na promoção do fado e dos artistas portugueses. «O fado tem um potencial de exportação maior do que o Flamenco e este projecto, para a EMI, não poderia ter sido mais bem-vindo».
A produção de Fados é responsabilidade da Fado Filmes, da Duvideo e da Zebra Producciones, será distribuído pela Lusomundo e EMI Portugal editará a banda sonora, que será lançada no próximo dia 24 em Portugal, Espanha e Bulgária; e mais tarde no Brasil, França e Japão.
Há duas décadas, o então estudante de Direito Adolfo Macedo já vestia, à noite, a pele de Luxúria Canibal.
O BLITZ apresentava-o assim: «Vem de Braga, tem 26 anos, não possui formação musical». No ano anterior, a banda à qual emprestava «teatralizada presença em palco» ganhara o prémio de originalidade no concurso do Rock Rendez-Vous. O primeiro álbum dos Mão Morta chegaria um ano depois, com o selo da Ama Romanta.
«Hoje acordei às 10 horas com a minha mãe a telefonar de Braga para saber como me tinha corrido o último exame – chumbei. (…) Fui cravar dinheiro ao meu avô, passei a casa do João Peste [Pop Dell’Arte] e vim ao encontro de uma entrevista. Se tivesse o dia livre, ia à praia, ou então punha-me a dormir. (…) Normalmente uso óculos, vejo os pormenores das coisas, vejo ao longe e ao perto, analiso e ninguém me vê. (…) A música dos Mão Morta não é, nem quer ser, revolucionária. O que fazemos é transpor para fora os nossos sentimentos. Ser verdadeiros. É quase uma catarse. (…) No palco canalizo toda a emotividade que não se desprende no quotidiano, faço o que não fiz durante o dia. Não sei ao certo o que lá faço, porque não o tento controlar. É tudo emocional».
Adolfo Luxúria Canibal a Luís Maio, in BLITZ nº 142, Julho 1987