Avante Galiza!
'Estamos fartos de saber que o povo galego fala un idioma de seu, fillo do latim, irmao do Castellano e pai do Portugués. Idioma apto e axeitado para ser veículo dunha cultura moderna, e co que ainda podemos comunicar-nos com mais de sesenta millóns de almas (...) O Galego é un idioma extenso e útil porque -con pequenas variantes- fala-se no Brasil, en Portugal e nas colónias portuguesas'.

(Castelão - Sempre em Galiza)



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Greve, folga ou tanto tem?

Nom é a partir de discussons e argumentos filológicos que se legitima ou impom um critério na padronizaçom de qualquer língua em posiçom subsidiária, como a que a nossa ocupa em relaçom ao espanhol. Existem numerosíssimos casos no mundo semelhantes ao galego que assim o certificam.

A planificaçom da variante minorizada sempre é decidida por factores políticos no seio da comunidade afectada, e nom por intrincadas explicaçons filológicas cujo cientifismo está fortemente carregado de ideologia. Flandres, Porto Rico e o Quebeque, por exemplo, decidírom que falam holandês, espanhol e francês, e nom “idiomas independentes”, enquanto na Córsega parece ter-se optado pola ruptura com o italiano, apesar de falarem umha forma do dialecto padrom no vizinho Estado. Sérvios e croatas passárom em poucos anos de falar a mesma língua servo-croata a decidir que falavam dous idiomas diferentes. Em todos esses casos, som orientaçons políticas as que determinam por onde irá a língua.

Com as suas particularidades, a questom lingüística galega nom é diferente de outras. Será a nossa consciência e a vontade politicamente expressadas que permitirá construir umha língua nacional ou, no seu caso, deixarmo-la esmorecer, como aconteceu no seu no caso da língua irlandesa.

Vejamos um pequeno exemplo de como a falta de soberania ou de critérios autónomos está a orientar a planificaçom do corpus léxico-semántico na Galiza. É um caso concreto relacionado com a actualidade destes dias, em que todos os meios de comunicaçom da Galiza falam da jornada de luita operária prevista para este 29 de Setembro.

Efectivamente, referimo-nos àquilo que nos países de língua portuguesa se chama 'greve', vocábulo de origem francesa que denominava a praça onde se reuniam os operários e desempregados da capital francesa na altura em que se desenvolvêrom as primeiras mobilizaçons operárias naquele país. Segundo o magnífico dicionário de português brasileiro Houaiss, a palavra incorporou-se ao português no século XIX, através de um procedimento habitual na transferência lexical entre línguas: o conceito novo chega com a correspondente etiqueta atribuída no ámbito lingüístico que o divulgou.

Assim acontece hoje com a terminologia informática procedente do inglês, por exemplo, ou, no passado, referindo um caso conhecido, com a palavra castelhana 'guerrilla', popularizada durante as invasons francesas e exportada a partir do ámbito castelhano, como empréstimo, para outros muitos idiomas, incluído o português.

No caso da 'greve', a origem do conceito é dupla, pois se as primeiras greves parecem ser originárias da Revoluçom Francesa, a sua generalizaçom aconteceu no século seguinte, na Inglaterra da Revoluçom Industrial. É por isso que algumhas línguas utilizam hoje termos originários do francês 'grève' (português, romeno, turco, euskara...), outras do inglês 'strike' (alemám, polaco...) e um terceiro grupo desenvolveu vocábulos próprios, como o italiano ('sciopero', do latim 'ex-operare' literalmente 'fora do trabalho'), ou o espanhol ('huelga', literalmente 'descanso').

No caso do galego, sabemos que historicamente temos padecido um grave défice na incorporaçom de neologismos, em funçom das condiçons precárias em que o galego subsistiu na Galiza. Nom tivemos como habilitar palavras novas que acompanhavam conceitos novos, porque carecíamos, como comunidade lingüística, da soberania lingüística imprescindível para isso. Praticamente todo o novo vocabulário entrou através do espanhol... incluída a 'huelga'.

Sim, a 'huelga', pois é assim que os falantes naturais de galego denominárom e, em muitos casos, ainda denominam, esse novo conceito próprio da vida laboral trazido polo capitalismo industrial. Os nossos avós ou pais, proletarizados com a sua incorporaçom às fábricas em cidades como Ferrol ou Vigo, utilizárom directamente a forma espanhola e só a consciência do novo nacionalismo galego conseguiu, muitas décadas mais tarde, socializar a adaptaçom actualmente consagrada no galego isolacionista: 'folga'.

De facto, se consultarmos os dicionários de galego elaborados desde o século XIX e até os anos 70 do século XX, veremos que o verbete 'folga', encontramos praticamente em exclusiva o sentido patrimonial desse termo, o que ainda hoje reconhece qualquer falante natural de galego: o 'descanso' ou 'espaço de tempo que se está sem trabalhar', sem qualquer conotaçom reivindicativa.

Também aparecem, por exemplo no Diccionario Enciclopédico Gallego-Castellano de Eladio Rodríguez González (1958-1961) ou no Dicionario Galego-Castelán de X. L. Franco Grande (1972), expressons idiomáticas que incluem esse substantivo, como 'andar de folga' ou 'botar umha folga', equivalentes a 'divertir-se' ou 'entreter-se'. No entanto, ao contrário do que acontece com qualquer dicionário espanhol, em que 'huelga' figura sobretodo com o único sentido com que é utilizado hoje, nos dicionários galegos nom aparece nem umha explicaçom do sentido “laboral” do termo, nem umha só frase feita que relacione o termo 'folga' com a acepçom que tomou a partir da galeguizaçom em falso do termo espanhol.

Os defensores da orientaçom contrária a um padrom reintegracionista, costumam argumentar que é perfeitamente legítimo que o galego faga as suas próprias habilitaçons semánticas, o que no caso da 'folga' simplesmente a fai ganhar umha nova acepçom. Afirmam também que é mais lógico fazer isso que adoptar umha palavra de origem estrangeira nunca registada na Galiza até que o reintegracionismo a propujo, como é o caso da 'greve'.

Porém, a essas razons podem opor-se argumentos de maior peso que questionam a sua validade:

- O primeiro, o facto de que, contrariamente ao que sucede no caso do espanhol, em galego a acepçom originária do vocábulo 'folga' está muito viva, ou, por melhor dizer, estava muito viva até que, nas últimas décadas, a pressom do espanhol fijo com que fosse caindo em desuso nos novos falantes, em favor do 'descanso' ou do '[dia] livre'. A acepçom nova, proposta inicialmente com a melhor intençom no sindicalismo galego para traduzir literalmente a “huelga” espanhola e posteriormente incorporada ao padrom isolacionista, favorece a definitiva desapariçom da acepçom patrimonial, por um motivo evidente: ambas acepçons som demasiado próximas nos contextos de uso e originariam contínuas ambigüidades se fossem utilizadas em simultáneo.

Repare-se para comprovar isso, num exemplo tam simples como o seguinte: “Amanhá temos folga”. É o vosso dia 'de descanso' ou 'ides paralisar a actividade laboral em defesa dos vossos direitos'? Difícil saber... É um facto que hoje a acepçom patrimonial do termo 'folga' está em quase absoluto desuso, como resultado de umha adaptaçom semántica aos valores que a palavra 'huelga' tem em espanhol, e para evitar confusons. Naturalmente, em Portugal e no Brasil nom aconteceu isso, porque, enquanto 'folga' mantivo o seu sentido patrimonial, o termo neológico para o conceito novo foi incorporado a partir do francês: 'greve'.

- O segundo argumento parte do facto nom menos evidente de que, além de em galego, é só em espanhol que o étimo latino 'folicare' deu, através de umha evoluçom regressiva, um termo com dous valores semánticos: o patrimonial e o novo. Da mesma forma, nas duas línguas, a acepçom histórica caiu totalmente em desuso, ficando o seu lugar preenchido polas mesmas formas: 'descanso' ou '[dia] livre'. Bem curioso que em nengumha outra língua tenha acontecido isso, o que é mais do que um indício de estarmos diante de um decalque semántico.

Evidentemente, esse decalque semántico, analisado isoladamente, nom tem maior gravidade. Até poderíamos aceitar a perda da acepçom patrimonial, porque a perda e mudança de significados fai parte da história de qualquer língua, tal como o recurso aos empréstimos de línguas próximas. Só que, no caso do galego, existe umha sistemática tendência que aponta nessa mesma direcçom de maneira progressiva e acelerada, ao ponto de desfigurar a integridade da língua. É isso que está em jogo, na hora de optarmos entre critérios reintegracionistas ou isolacionistas. Os primeiros marcam a nossa soberania como comunidade lingüística, enquanto os segundos nos empurram para umha hibridaçom acelerada que atinge todos os planos da realidade material da nossa língua: a fonética, a lexical, a semántica, a morfossintactica...

No caso da 'folga', estamos portanto diante de um espanholismo de tipo semántico, pois ninguém duvida que essa palavra é perfeitamente galega. Mudou foi o seu significado, acomodando-se à realidade semántica do espanhol, seguindo umha tendência generalizada que, cada vez mais, dá preferência em galego a termos 'nom marcados' em relaçom à língua dominante. Daí que se tenha sacrificado o sentido tradicional de 'folga' em favor do que nos identifica com a lógica interna do idioma do Estado. No fundo, estamos a comentar um fenómeno que pom em evidência a extrema fraqueza do processo normalizador do corpus do galego.

Regressando ao ponto de partida, reafirmamos que, com efeito, o debate sobre qual deve ser a orientaçom da padronizaçom galega é muito mais político do que filológico.

Se só aspirarmos a que nos deixem subsistir em precário, com umha língua autonómica e peculiar, mas fortemente dependente do espanhol, entom a orientaçom padronizadora oficial dos últimos trinta anos pode servir-nos.

Se, polo contrário, quigermos exercer a nossa soberania plena como comunidade lingüística, entom deveremos apostar na restauraçom completa da integridade do idioma. Nesse labor imprescindível de autoconstruçom, seria suicida esquecermos que, como já sentenciou Manuel Murguia em tempos do nosso Rexurdimento, “nunca, nunca, nunca pagaremos aos nossos irmaos de Portugal que tenham feito do nosso galego um idioma nacional”.


Um artigo de Maurício Castro.
Comentários (0) - Secçom: Língua - Publicado o 30-09-2010 00:13
# Ligaçom permanente a este artigo
Mapa e música
Eu sou, tu és, ele é... escravo do passado
Nós somos, vos sois, eles são... a razão deste fardo


A raiz de ler umha nova sobre o emprego da música para reintroduzir o português no Timor-Leste relembrei a estratégia empregada por mim próprio para explicar aos meus amigos, conhecidos e familiares o porquê do reintegracionismo: mapa e música.

O artigo em questom foi publicado na revista Pessoa; um dos parágrafos diz assim:

'Linguistas e pedagogos sabem que o desafio do ensino de uma língua é unir a aprendizagem com a emoção, e abrir caminho para explorar o prazer de aprender. O prazer afeta a produção de uma substância chamada dopamina, que funciona como mensageiro químico que facilita a aprendizagem. Quem fica passivo com a música da Daniela Mercury? Por outro lado, a memorização é imprescindível na aprendizagem de uma segunda língua, e a música, pelo ritmo, fornece uma rota para nosso cérebro. Foram estes os princípios arrojados reproduzidos em Timor'.

Eu alucinei bastante quando descobri que o mesmo que eu fazia no meu entorno mais achegado é empregado como método de reaprendizagem -da mesma língua- na outra ponta do planeta... e aí é que entra o mapa. Porque eu nom tinha nem puta ideia da existência dum país chamado Timor-Leste (e isso que sou amador da geografia) e muito menos de que lá se falasse a língua que nasceu na antiga Gallaecia há umha mão-cheia de anos.

A questom é que a música está omnipresente em qualquer acto lúdico e no lazer da mocidade, bem para bailar, bem por gosto pola música, bem como simples som de fundo que anime o ambiente. A nível geral, nas rádios, televisões e locais de copas da Galiza bombardeiam-nos com música em inglês e em espanhol... e a gente vê estas línguas como úteis e internacionais.

O inglês é a dia de hoje o pidgin internacional por causas geopolíticas do capitalismo global; o espanhol é a segunda língua com mais falantes nativos no planeta... o galego, do ponto de vista autonomista, é umha língua que falam os velhos dumha esquina do Reino de Espanha.

Como dizia Valentim Fagim no seu screencast sobre a estratégia lusófona para o galego, o nosso universo de referência é principalmente o espanhol, sabemos quem som Shakira, Maná, Violadores del Verso, ou Ricky Martin... mas somos bem poucos os galegos que conhecemos a Ivete Sangalo, Skank, Bob da Rage Sense ou Lizha James. E já vai sendo tempo de divulgar estes artistas no nosso país! Todos lembramos um vrão no que, enquanto na Espanha triunfava o Paquito el Chocolatero de King África, na Galiza arrasava A Cabritinha de Quim Barreiros... por que havia ser esse vrão a excepçom no lugar de ser a norma?

A minha melomania leva-me a ter, além dum disco rígido cheio de música, umha cheia de discos tanto em formato CD como USB no carro, e umha importantíssima parte destes de música em galego... em galego da Galiza, em galego do Brasil, em galego de Portugal, em galego de Angola, etc. Sempre que conheço gente nova e vamos a algum sítio no meu carro a primeira reacçom é alucinar... e com o passo do tempo algum/ha acaba por me pedir tal disco ou tal cançom. Alguns e algumhas perguntam: 'e estes de onde som?' 'Do Brasil', digo eu, ou de Angola, ou de onde forem. A cara de surpresa sempre aparece junto com o desconhecimento de que se falasse português em mais sítios que Portugal e Brasil... algumhas vezes a surpresa levo-a eu: 'como vam ser de Angola se falam como a minha avoa de Carvalho!'. Pois é... temos falta de Mapa.

E temos falta de mapa porque na escola nos dizem que o galego se fala em quatro províncias espanholas, enquanto o espanhol é falado em todo o Reino de Espanha e além disso na América do Sul. O Brasil nom existe nos nossos livros de texto, ainda sendo o gigante geográfico e económico da América Latina. Por isso era tam necessário o mapa que vem de editar a AGAL baseando-se no de Carvalho Calero, que sim chegou a aparecer nos nossos livros de texto.

Por isso é tam importante divulgar a música lusófona; porque, como no Timor-Leste, na Galiza precisamos de recuperar o nosso lugar no mundo, e nom há melhor jeito de reaprender umha língua que de jeito lúdico por médio da música. Por isso é tam importante e urgente divulgar o mapa da galeguia, para fazer ver à gente que a nossa língua é extensa.

Por se estas nom fossem razões suficientes... que me dizem da possibilidade de reproduzir música em qualquer lugar sem ter de render contas ante a SGAE? ;)

P.S.- As estrofas iniciais deste artigo som da cançom 'PALOP', dos Bob da Rage Sense.
Comentários (0) - Secçom: Cousas Minhas - Publicado o 17-09-2010 20:53
# Ligaçom permanente a este artigo
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"Se aínda somos galegos é por obra e gracia do idioma"
(Castelao)


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