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'Estamos fartos de saber que o povo galego fala un idioma de seu, fillo do latim, irmao do Castellano e pai do Portugués. Idioma apto e axeitado para ser veículo dunha cultura moderna, e co que ainda podemos comunicar-nos com mais de sesenta millóns de almas (...) O Galego é un idioma extenso e útil porque -con pequenas variantes- fala-se no Brasil, en Portugal e nas colónias portuguesas'.

(Castelão - Sempre em Galiza)



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Galegos de condiçom ou macacos de repetiçom?
Assistindo ao jogo de ontem entre Portugal e Espanha, nas meias-finais do Euro 2012, foi curioso dar umha vista de olhos aos apelidos ou sobrenomes dos jogadores de ambas equipas.

Se bem me lembro, Pereira, Veloso, Costa, Viana, Oliveira, Varela... jogárom contra Casillas, Iniesta, Busquets, Arbeloa, Negredo, Fábregas...

Os primeiros, apelidos (sobrenomes) clara e inequivocamente galegos, ou galego-portugueses se preferirmos. Os segundos, castelhanos, cataláns, bascos... nomes de família tam respeitáveis como afastados dos nossos.

É lamentável o espetáculo que umha parte significativa do nosso povo, do povo galego, está a dar polas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias, coreando "Yo soy espanhol", pintando-se com o 'rojo y gualda' do fascismo e identificando-se com umha nacionalidade que, por princípio, exclui o nosso ser nacional. É lamentável e fai pensar no poderoso que pode chegar a ser o aparelho de poder ideológico de um Estado e o necessário que para a Galiza seria poder construir um que fosse alternativo a toda essa ideologia opressiva que nos nega, esse Estado que na atualidade padecemos.

A Galiza é radicalmente negada inclusive no plano simbólico. O atual escudo constitucional espanhol, que inclui as barras catalás e aragonesas, as cadeias navarras, os castelos castelhanos e os leons leoneses... exclui qualquer referência ao mais antigo dos reinos peninsulares: o da Galiza. A nossa história foi completamente apagada dos seus livros de história, os livros que os galegos e galegas temos que estudar até hoje. Também no plano musical, até hoje tem sido o sofrido povo andaluz que viu como utilizavam, desnaturalizando-a, a sua música popular para construir esse código nacionalizador chamado "cançom espanhola". No caso da Galiza, o desprezo pesa inclusive mais que a manipulaçom.

Desprezam-nos tam claramente que convertem o nosso nome nacional, 'galego', em apelativo insultante quando querem indicar que alguns ilustres renegados, como o atual presidente do governo espanhol, apesar dos seus esforços, mostram algum traço de caráter identificável, no código espanhol, como "gallego", o que é pouco tolerável para eles.

O mesmo poderíamos dizer até da nossa forma de falar a língua deles. Os atores e atrizes galegas devem seguir estritas pautas de dicçom para banir qualquer rasto da fonética, da curva tonal, do vocalismo identificador das falas galegas, se quigerem ter algum sucesso em Madrid e no mercado espanhol. É isso ou ficarem reduzidos a personagens marcados com o sinal de "galegos", antes para mal do que para bem.

Conseguírom há séculos cooptar a classe dirigente galega, daí a força atual da direita cavernícola espanhola entre a burguesia galega. Descabeçárom as nossas possibilidades de desenvolvimento endógeno e vendêrom-nos a incorporaçom forçada do nosso país ao seu projeto nacional, num processo de espólio nacional inacabado. Ainda hoje, quando alguns ousamos discutir a nossa suposta nacionalidade espanhola, respondem-nos que som eles que nos dam de comer e que, sem Espanha, morreríamos de fame. Que galego ou galega consciente nom tem ouvido esse "argumento" por parte dos defensores do statu quo atual dependente do nosso país?

Se bem a extorsom secular só tem vindo a incrementar-se nas últimas décadas, o forte aparelho de propaganda representado nestes dias polo culto a "La Roja" (nome de invençom recente, como invençom recente é a própria Espanha) tem demonstrado nestes anos umha grande efetividade na incorporaçom do resistente povo galego à normalidade plana do sistema mesetário. Conseguírom dar continuidade ao nom menos efetivo trabalho realizado polo franquismo.

É verdade que, ainda hoje, o sentimento nacional espanhol nom se vive nas ruas galegas com a intensidade que se aprecia em qualquer cidade ou 'pueblo' da Espanha profunda. É verdade que subsiste um contraditório sentimento nacional galego e até um minoritário independentismo. Porém, as distáncias reduzem-se ao ritmo que a nossa língua é liquidada, a memória histórica esquecida e a integraçom do nosso nacionalismo no seu regime jurídico-político um facto palpável.

Em condiçons normais, a Galiza olharia mais para o sul e teria relaçons de irmandade plena com Portugal. Torceria por Varela, Veloso e Pereira, mais que por Busquets, Casillas e Iniesta. Nom andaria tanto galego exaltado a insultar os negros da equipa contrária e a presumir de umha seleçom que, por nom ter, nom tem um só galego nas suas fileiras.

De facto, Portugal sempre foi, e continua a ser, um bom espelho em que observarmos o nosso próprio estado de descomposiçom ou regeneraçom coletiva como povo. Os preconceitos contra Portugal, alter ego da Galiza histórica e autêntica, som só umha manifestaçom do bem estudado e conhecido auto-ódio que se manifesta em povos colonizados como o galego.

De resto, e voltando para o Euro 2012, em condiçons de normalidade hoje inexistentes, a Galiza teria as suas próprias seleçons. Teria os seus próprios Varelas, Velosos e Pereiras, e nom se importaria com a cor da pele de nengum deles. Nem sequer com a forma do apelido.

Teríamos um Estado próprio, democrático, socialista, republicano; e seríamos -acredito que ainda seremos- galegas e galegos com legítimo orgulho da própria condiçom, e nom como os que nestes dias andam por aí fora pintados do insultante 'rojigualda', que nom passam de espanhóis por imitaçom ou macacos de repetiçom.


Um artigo de Maurício Castro.
Comentários (0) - Secçom: Desportes - Publicado o 30-06-2012 00:40
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