Pementos e Poesia


Pregão da XI Festa do Pemento do Couto

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Pregão da XI Festa do Pemento do Couto
Pregão da XI Festa do Pemento do Couto.
O Couto, 9 de Agosto de 2009
Por Afonso Xavier Canosa Rodríguez

Ilmas. Autoridades, caros vizinhos e vizinhas de Narom, amigos e amigas;

Quando me convidaram a ler o pregão da Festa do Couto tive duas sensações contrapostas: duma banda, uma grande ledícia por poder participar duma festa numa terra e com uma gente que me é particularmente grata, decote acolhedora, pela que sinto grande admiração desde a mina adolescência. Doutra banda tive um aquele de desacougo, incerteza, por qual puder ser o motivo de merecer eu tão outo honor como é para mim o lhe pôr limiar à festa. E cavilei em qual poderia ser a minha relação com o Couto e o Pemento.

Pelo regular adoita-se escolher um notável, pessoa de sona ou sábio que sobranceie as festas e possa promovê-las. Assim que as minhas cavilações são maiores pois eu não sou nem notável, nem famoso, nem académico. Sou um operário da construção, encofrador, oficial de segunda, que dedica o tempo que não anda entre betão ou com o martelo a duas actividades: a filologia, em concreto a tradução dos Mabinogi, uma colecção de histórias conservadas desde o século XIV alô pelo País de Gales; e a agricultura, particularmente o cultivo da pataca, pois eu sou bergantinhão, e este é o cultivo que temos como denominação de origem.

E daquela quais podem ser as minhas relações com O Couto amailo pemento?
Vou começar pela minha origem. O ser um homem de Bergantinhos é, para mim, manter uma lealdade com o mundo atlântico desde uma rija galeguidade. E velacô o meu primeiro e mais antigo vencelho com estas terras nas que tamos arestora, que lindaram, noutrora como hoje, com a Grande Bretanha mar por médio.

Em primeiro lugar junge-me com O Couto e convosco a fala nossa. Eu aprendi a ler e a escrever nos níveis superiores e mais avançados, no manejo e capacidade de compreensão do discurso mais rigoroso e exacto, que é para mim o poético, com um vizinho vosso, muito ligado a Xúbia: Fernão Esquio. De feito, à hora de preparar este pregão rebeirei num velho manual para ver de topar inspiração: se sou quem de vos transmitir anque seja só uma pisquinha, um chisquinho, uma faisquinha, uma charamusquinha, uma muxica, de toda a paixão e ledícia que eu quiser dar-vos ao me convidardes, sabei que a lumieira que me inspirou está num vosso vizinho que viveu acô pela volta de há sete séculos.

Daquela não havia pementos nesta beira-mar, mas cuido que nem o antigo parente mais picante, a medrar ainda nas Américas, dos não-picantes pementos do Couto, poderia ser tão picante como o Esquio que agasalhava as mais distinguidas donas com artigos de requintamento transpirenaico.

Cuido que D. Fernão estaria muito contento e havia concordar totalmente com os pementos do Couto: acadados os mais outos cúmios do picante por meio do metro, o ritmo, o leixa-prem e paralelismo exactos, melhor centrarmos o pemento nas excelências organolépticas mais universais, aptas para todos os públicos.

Cos ecos, logo, deste vosso vizinho que me inspira, a ver se sou quem daquela de ligar o meu quefazer com O Couto e os pementos.

Como vos dizia, eu sou encofrador, mas pelo menos onde eu sou, os invernadoiros vêm com planos de instalação nos que ainda não se requer ?e melhor assim- instalar fundamentas de betão para anclar a estructura metálica. Se a selecção do pemento não precisa muitos dias de conservação antes do envasado ?como sim acontece com a pataca- se cadra tampouco cumpre a construção de naves com sistema de ventilação no chão, temperatura e luz controladas, -como também pide a pataca-, assim que vou aforrar explicações de ferralha e betão, que ademais, abondo chega pela semana e hoje é festa.

Mas, por favor, acordai-vos de que esses pementos que cultivais, que seleccionais, que envasais, que promocionais com todo carinho e dedicação, estão comigo nos momentos de conforto, quando um se para a repor forças, ou vai a cas do irmão na Crunha, que lhe queda de camino ou cadra mais perto da obra deste mês: ali estão os pementos do Couto, os que não picam.

Como também poderiam estar quando na sexta-feira um para a tomar a cerveja cos companheiros, a comentar a conveniência de hormigonar a última acometida na vindeira segunda-feira nomentres a mais formosa e amável camareira ou o mais atento camareiro nos serve uma tapa preparada com pementos.

Como também poderiam estar nos estantes dum supermercado numa vila turística do Mediterrâneo, a onde um chega feitas dez horas de ferralha e encofrado dum muro de contenção, conduzindo o furgão da empresa, com uma roga de companheiros, ferralhas e carpinteiros, da Angola, da Guiné-Bissau, ou de qualquer curruncho do mundo, depois de sermos parados por um garda civil que se cadra bem informado da nossa regularidade, se cadra num excesso de confiança que um nunca pode agradecer abondo, diz: ?se são companheiros seus, pode seguir?.

Como também poderiam estar num restaurante da MittleEuropa, no fim duma xeira de encofrado de panós com ataranchado metálico pré-instalado para construir o rés-do-chão duma nave industrial, de volta de treinar com a equipa de futebol, a barulharmos em diversas línguas da Europa do Leste, central, do sul ou ocidental ainda que as camisetas digam ?Centro Gallego?.

Quando estou numa situação deste tipo, escutando e falando em línguas diversas, a miúdo estabeleço comparações a partir dum termo. É o que me aconteceu, e agora entro já um pouco na actividade pela que em princípio fui eu merecedor de me convidardes acô, quando estava a traduzir os Mabinogi.

Os Mabinogi são histórias da antiga Bretanha, no seu tempo podiam servir com exemplos, modelos de ideais de conduta. Esta é pelo menos uma das intencionalidades que eu vejo mais claramente no primeiro dos relatos que o compõem. Levou-me quase dez anos traduzi-lo. Era a primeira vez que se vertia directamente do idioma céltico original a uma língua peninsular.

Vou ser breve: a história é uma amizade. Há um lugar onde os dois amigos se encontram. Este lugar é um monte, uma bouça. A forma em galês é coed, pronúncia antiga ?d = /t/. Ainda que a correspondência não é exacta, e poderia prestar-se ademais a comparações ou paralelismos que levassem picante ao modo do meu inspirador Fernão Esquio, na minha primeira versão os protagonistas selam a sua amizade num couto.

Assim a denominação de origem do Pemento do Couto, ao empregar este topónimo, está a engadir uma conotação de valor natural, lembra as bouças parcialmente acondicionadas para o uso agrícola. Cuido que este é mais um grande acerto: o vencelho dum produto a um habitat no que a natureza aparece no seu estado mais virgem, rebordão, bravio.

Quiser, dado que vem ao caso, mencionar a minha outra actividade desde há bem anos: o cultivo da pataca.

Noraboa. Sois um exemplo para mim. Na minha família e em moitas das casas onde eu sou, os homens tinham um ofício ou emigravam, mas estacionalmente ou como complemento praticava-se a agricultura. Há doze anos eu, continuando uma tradição, decidi que parelho à minha actividade profissional devia dedicar-me no que puder à agricultura. Assim especializei-me na pataca, que é o cultivo com denominação em Bergantinhos.

De primeiras eu quis, como vós, dedicar-me a uma variedade local, definir e melhorar as suas características organolépticas e combinar uma produção eficiente com uma relação óptima e ecológica com o habitat. Ainda que algo avancei, estou muito longe se quer de ter uma variedade própria: a pouca que fica, a piques de desaparecer, está muito recastada.

A pataca é um alimento básico, imprescindível, assim que a produção por ferrado e a qualidade do tubérculo para o seu processado primam umas variedades sobre outras. Temos a responsabilidade de oferecermos um produto de qualidade que, obtendo uns justos benefícios, seja acessível para o conjunto da povoação. A produção da pataca mede-se a nível global e pode ser uma solução para que o conjunto dos habitantes do planeta tenha uma alimentação óptima. Há centos de pessoas dedicadas à investigação nos mais diversos eidos para a melhora do cultivo. Está inserida num esquema produtivo muito, a cada mais, regulado. E eu cuido que é bem seguir o vosso exemplo: destacar uma característica organoléptica que distinga o produto mais local e associá-lo a um contorno geográfico.

Assim que, para além de ser degustador do pemento do Couto declaro que sou um aprendiz e seguidor do modelo que aplicastes para acadardes a denominação geográfica protegida.

Remato. Hei de agradecer o vosso labor quando vaia ao mercado e possa topar os vossos pementos correctamente identificados e etiquetados. Para prepará-los de noite, junto com umas patacas finas, às que lhe engadirei um chisco de pementa picante. Segundo o dia, arrimo-lhe um anaco de queijo ou peixe ou carne. Boto-o numa fiambreira e é o meu jantar quando 'tou numa obra. Assim, mentres converso sobre a conveniência de picar uns centímetros de leitada que se deitou na base dum elemento, que por certo houve que desencofrar pinzando com um pico, se alguém me pergunta se os pementos picam, direi que o único picante é o que leva a pataca, que os pementos são do Couto e esses podem acompanhar e maridar muito bem, velaqui a prova, com picantes: o pemento, de seu, não pica nunca!

Viva o Couto !!!
Viva Fernão Esquio e a poesia !!!
Viva o Pemento do Couto !!!

Categoría: Xeral - Publicado o 24-08-2009 19:18
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