Irã: O 18 Brumário de Mahmoud Ahmadinejad
Alan Woods
Dois candidatos concorreram às “eleições” iranianas, mas o regime já havia decidido quem seria o vencedor bem antes de qualquer voto ter sido depositado nas urnas.
Apesar da “oposição leal e conciliatória” de Mousavi, grande parte do eleitorado iraniano usou seu voto para expressar sua oposição ao regime. Uma vez anunciado o “resultado” a violência explodiu nas ruas, veio à tona a fúria acumulada e o descontentamento entre as massas. Tudo isto marca uma nova fase no desenvolvimento da revolução iraniana.
O historiador francês Alexis de Tocqueville, uma vez escreveu, que o momento mais perigoso para um mau governo se dá quando este tentar fazer reformas. Mas é ainda mais perigoso quando este regime se recusa a fazer reformas.
A história conhece muitos exemplos de autocracias apodrecidas, que depois de um longo período no poder sucumbem a um processo irreversível de deterioração interna. Em tais momentos, todas as contradições internas que permaneciam escondidas vêm à tona subitamente. Sempre há duas tendências principais: a linha dura e a reformista. A primeira argumenta que: “Não podemos fazer concessões a reformas, pois uma vez postas em movimento seremos derrubados”. E a última diz: “precisamos fazer reformas desde cima, caso contrário, seremos derrubados.” Ambas estão corretas.
O que era verdade, na França, em 1789 também é verdade no Irã em 2009. Depois de três décadas no poder, o regime dos Mulás é extremamente impopular. Os analistas acreditavam, portanto, que Mousavi, amplamente reconhecido como um reformista, se sairia melhor. O debate presidencial entre Mousavi e Ahmadinejad sacudiu a nação, e nos últimos dias a campanha de Mousavi pegou fogo, impulsionando passeatas por toda Teerã. O que estas passeatas mostraram foi um ardente desejo por mudanças.
Em geral, esperava-se que, se a participação fosse elevada, Mousavi golpearia seu polêmico adversário. Ou pelo menos conseguiria disputar contra ele o segundo turno. Pesquisas, na Sexta-Feira, indicavam uma votação sem precedentes, davam margens suficientes para que Mousavi chegasse à presidência. A participação eleitoral ultrapassou os 80%, ao menos em duas pesquisas do Sábado.
A turbulência econômica no Irã ao longo dos últimos 4 anos minou a base de apoio de Ahmadinejad até mesmo nas regiões rurais. O governo não só anunciou a vitória de Ahmadinejad, anunciou uma esmagadora vitória, com 62,63% dos votos contra os 33,75% de Hossein Mousavi. De acordo com os resultados, que foram anunciados com indecente rapidez, Mousavi perdeu até mesmo em regiões de Teerã onde estão suas principais bases de apoio. Este cenário virtuoso de fraude eleitoral foi tão espalhafatoso que chocou até mesmo as pessoas que consideram estas práticas normais.
Fraude eleitoral
A velocidade com que o anúncio foi feito por si só já seria suficiente para indicar uma fraude massiva. O Irã ainda é um país predominantemente rural com uma infra-estrutura que não permite tal rapidez para a contagem dos votos. Em uma eleição genuína, muitos dias seriam necessários para a divulgação dos resultados de cada província e povoado nas áreas remotas. Ao invés disso, Ahmadinejad anunciou imediatamente que havia ganhado com uma grande vantagem. “O povo do Irã inspirou esperança para todas as nações e criou uma fonte de orgulho para a nação e desapontou todos os maus intencionados”, disse Ahmadinejad em um programa de TV no Sábado à noite. “Esta eleição aconteceu em um momento crítico da história!”.
Para um regime despótico que detém cada fração de poder firme em suas mãos, a tarefa de fraudar uma eleição não é lá muito difícil. Depois de encerradas as urnas – de acordo com notícias vindas de fora do Irã – Corpos da Guarda Revolucionária Iraniana foram às ruas fortemente armados. Em uma área no Norte de Teerã, um reduto da oposição e do ex-Primeiro-Ministro Mousavi, jornalistas estrangeiros testemunharam a passagem de um comboio com pelo menos quinze veículos militares cheios de guardas armados deslocando-se ao longo da estrada. O Ministério do Interior também foi bloqueado e fortemente guardado, o regime temia que os apoiadores de Mousavi reunissem forças no Ministério para protestar contra a contagem dos votos.
Ibrahim Yazdi, um líder dissidente iraniano e ministro do interior nos primeiros anos da República Islâmica, disse ao jornalista americano Robert Dreyfuss:
“Muitos de nós acreditam que as eleições foram fraudadas. Não apenas Mousavi. Não temos a menor dúvida. E no nosso entender, não é legitima. Houve muitas, mas muitas irregularidades. Não permitiram que os candidatos supervisionassem as eleições nem a contagem dos votos nas zonas eleitorais. O ministro do interior anunciou que supervisionaria a contagem final em seu gabinete, no ministério, com apenas dois observadores presentes.
Nas últimas eleições, anunciaram o resultado em cada um dos distritos, dessa forma as pessoas poderiam seguir a apuração e fazer seu julgamento acerca da validade dos números. Em 2005, houve problemas: em um distrito havia cerca de 100.000 eleitores, e anunciaram um total de votos de 150.000. Desta vez não liberaram os dados de cada distrito em particular.
No total havia cerca de 45.000 zonas eleitorais. Havia 14.000 urnas móveis, que podiam ser transportadas de povoado em povoado. Muitos de nós protestamos contra isso. Originalmente, as urnas móveis eram para ser usadas apenas em lugares tais como hospitais. Desta vez, foram usadas em delegacias de polícia, batalhões do exército e vários outros setores militares.
Mousavi e Karroubi [os principais candidatos de oposição] em antecipação estabeleceram comitês para proteger o voto do povo. Muitos jovens se dispuseram a trabalhar nestes comitês. Mas as autoridades não permitiram. Não existe maneira, independente do Governo ou do Conselho de Guardiões, de verificar os resultados.”
Com o resultado eleitoral em seu bolso a insolência de Ahmadinejad não conhece fronteiras. O presidente disse que as eleições foram um “modelo de democracia” e acusou os “opositores do ocidente” por criticar as eleições. “Nas eleições de sexta-feira, o povo saiu vitorioso”, declarou ele. “As eleições no Irã são realmente importantes. Eleições significam o consenso de todas as pessoas, resolvem-se na cristalização de suas demandas e desejos, é um salto na direção de aspirações mais elevadas e de progresso. As eleições no Irã estão totalmente fundamentadas nos movimentos populares, pertencem ao povo com os olhos no futuro, projetam a construção do futuro!”.
Supôs avanços através do consenso, dizendo que reformas econômicas e de infra-estrutura podem ser realizadas no Irã através de um processo coletivo. “Todos nós podemos unir forças”, disse, enquanto seus capangas armados espancavam as pessoas nas ruas. Dezenas de milhares de apoiadores de Ahmadinejad reuniram-se na Praça Valiasr da capital agitando bandeirolas para o discurso da vitória durante a noite - tentava demonstrar força e sufocar os protestos de oposição.
“As eleições de 12 de Junho foram uma expressão artística da nação, que fez avançar a história das eleições do país”, disse o Aiatolá Khamenei. “Os 80% de participação e os 24 milhões de votos apurados na eleição presidencial é uma real celebração de que com o poder de Deus Todo Poderoso pode-se garantir o desenvolvimento, progresso, segurança nacional e o regozijo e a excitação da nação.”
Protestos espontâneos
Sem dúvida, a nação está excitada – mas não regozijada. O candidato reformista Mehdi Karrubi chamou o anúncio do resultado eleitoral de uma “piada” e “assombrosa.” Ainda durante os louvores de Ahmadinejad sobre os resultados e a grande margem, e ainda durante os lamentos de Mousavi e seus apoiadores pelas ruas de Teerã começaram os conflitos nas ruas. Na tarde de Sábado as ruas da capital estavam aparentemente calmas. Mas ao cair da tarde do mesmo dia manifestações espontâneas eclodiram nas ruas de Teerã. Isto reflete a enorme acumulação de fúria, desespero, e amargura no seio da sociedade iraniana que está gestando implicações revolucionárias.
Khamenei sugeriu que os iranianos deveriam respirar fundo e pensar sobre as conseqüências do voto. “O sábado seguinte às eleições sempre deve ser um dia de introspecção e paciência,” disse ele. “Todos os apoiadores tanto os do candidato eleito como cada um dos apoiadores dos outros candidatos devem evitar qualquer medida provocativa e qualquer comportamento condenável. O presidente eleito é o presidente de todo o povo do Irã e todos, incluindo os rivais de ontem, devem protegê-lo e ajudá-lo.” Estas palavras do supremo líder revelam o medo do regime de distúrbios populares. Não estão errados por se sentirem assim.
Manifestantes gritam: “o presidente está cometendo um crime e o líder supremo o apóia”, palavras altamente inflamáveis em um regime onde o líder supremo, Ali Khamenei, é irrepreensível. Lojas, gabinetes governamentais e negócios fecharam tão logo começaram as tensões. Multidões reuniram-se também em frente à sede do comitê eleitoral de Mousavi, mas não havia sinal do dirigente político rival de Ahmadinejad. Os manifestantes ergueram seus punhos e gritavam palavras de ordem contra Ahmadinejad.
Os manifestantes atearam fogo às lixeiras e árvores, criando colunas de fumaça negra entre os blocos de apartamento e os edifícios do centro de Teerã. Um ônibus vazio foi consumido pelas chamas em uma estrada. A polícia recuou em blocos, inclusive pelotões móveis de motocicletas com cassetetes. Os manifestantes lançaram pedras e garrafas nos oficiais, gritando “Mousavi, dê-nos nossos votos de volta” e “as eleições estão repletas de mentiras”.
Mais de 100 reformistas, incluindo Mohammad Reza Khatami, o irmão do ex-presidente Mohammed Khatami, foram presos, de acordo com o líder reformista Mohammad Ali Abtahi. Ele disse à Reuters que eles eram membros da direção do partido reformista iraniano Mosharekat. Um porta-voz do judiciário negou que eles houvessem sido presos, mas disse que eles foram intimados e “alertados para não aumentar as tensões” antes de serem liberados. O Estado aprisiona e tortura os sindicalistas e espanca os estudantes, mas os políticos burgueses são liberados com apenas uma palmada na mão.
As pessoas se debruçavam sobre as janelas e sacadas para ver a multidão de manifestantes em marcha, muitos deles eram partidários de Mousavi e conduziam manifestações extremamente barulhentas, mas pacíficas. Mais tarde, durante a noite, uma agitada e furiosa multidão tomou a Praça Moseni em Teerã, quebrando lojas, ateando fogo e derrubando símbolos. Dois grupos de pessoas enfrentaram-se na Praça, lançando pedras e garrafas e gritando furiosamente. Observadores acreditam que eram partidários de Ahmadinejad e de Mousavi em choque.
Os protestos, claramente espontâneos, não se limitaram a Teerã. Eclodiram também em outras cidades, incluindo Tabriz, Orumieh, Hamedan e Rasht. Claramente, ninguém organizou esses protestos, e muito menos os líderes reformistas. A nova tecnologia é ferramenta tática para mobilizar politicamente os jovens iranianos, apesar de as mensagens de texto terem sido bloqueadas nos últimos dias, assim como o Facebook. Contudo, os tradicionais métodos do boca a boca também funcionam e os manifestantes iranianos chegavam em massa aos pontos de concentração ao redor de Teerã no Sábado.
No Domingo a efervescência continuava. “Era um ‘jogo’ entre os manifestantes e a polícia,” disse Samson Desta, um repórter da CNN, que foi agredido por um policial. “Pelo tempo transcorrido, pode parecer que a polícia tem as coisas sob controle. Mas falamos com muitos e muitos estudantes e eles em geral dizem ‘Isto não acabou. Eles podem nos deter agora, mas voltaremos e faremos com que nossa voz seja ouvida’.”
Este foi o segundo dia de protestos em Teerã. No Sábado, milhares de manifestantes gritavam “Morte à ditadura” e “Queremos liberdade”. Foram queimadas motocicletas da polícia, pedras atiradas contra as janelas de lojas, latas de lixo lançadas ao fogo.
Na noite do Domingo uma calmaria tensa baixou sob as ruas de Teerã, mas Jon Leyne da BBC, na cidade, noticiou que aconteceram confrontos na sede da IRNA - a agência oficial de notícias do Irã - e também pelo menos um no subúrbio. Houve também notícias de repressão à mídia independente. A sede da rede de TV saudita, al-Arabiya foi fechada por “razões desconhecidas”, disse o canal. Os serviços de telefonia celular foram restabelecidos, mas havia notícias de que as mensagens de texto continuavam restritas e o bloqueio ao acesso de sites públicos da internet, inclusive o da BBC, continua. Estas atitudes não demonstram confiança, ao contrário, demonstram um extremo nervosismo por parte do regime.
Hipocrisia dos imperialistas
O mundo todo reagiu. Nos países como EUA e Canadá escutaram-se vozes sobre as irregularidades da votação. Mas os países ocidentais que são tão críticos à falta de direitos humanos no Irã foram circunspectos sobre a descarada fraude eleitoral no país.
De acordo com uma notícia da CNN, o comando militar americano no Oriente Médio enviou uma mensagem às forças americanas recomendando a manutenção da disciplina e a prudência em caso de encontrarem forças militares iranianas durante a agitação gerada pelas eleições presidenciais iranianas. As preocupações militares americanas são resumidas assim “alta sensibilidade iraniana e até mesmo medo de potenciais ameaças internas e externas” disse um oficial.
As críticas em Washington mal puderam ser ouvidas. Hilary Clinton manteve sua boca fechada, passando a tarefa ao “homem invisível”, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, que expressou suas “dúvidas” sobre “as formas de repressão contra as multidões, a forma como foram tratadas as pessoas”. Embora usasse uma linguagem comedida, disse que os EUA deveriam aceitar “por enquanto” a escolha de Teerã, que Ahmadinejad conseguira a reeleição. “Há muitas questões terríveis sobre como as eleições ocorreram,” disse Biden. “Não temos fatos suficientes para fazer um julgamento firme.”
O ministro francês de relações exteriores, Bernard Kouchner, disse que seu governo está preocupado com esta situação e criticou “a um tanto quanto brutal reação” por parte das autoridades em resposta às manifestações. A União Européia disse em um pronunciamento que estava “preocupada sobre as irregularidades alegadas” durante a votação de Sexta-Feira.
Esta política reticente dos imperialistas não é acidental. Eles estão aterrorizados com a possibilidade de uma revolução no Irã que terá as conseqüências de um terremoto por todo o Oriente Médio e Ásia. Além disso, Washington espera voltar a estabelecer boas relações com o governo de Teerã, cuja assistência é fundamental para assegurar a retirada do Iraque e estruturar uma rota para garantir o abastecimento das tropas no Afeganistão. Também precisam do apoio do Irã para sua mais nova “iniciativa de paz” sobre a questão palestina. No mínimo, gostariam de garantias de que o Irã não irá sabotá-lo, embora Netanyahu já esteja fazendo um bom trabalho, ao insistir que qualquer Estado palestino deve ser desarmado e renunciar ao direito de retorno, a diáspora palestina.
São estes fatores que determinam a política conciliatória de Obama em relação ao Irã, que previmos em “A Invasão de Gaza: O que significa?”. Em uma semana na presidência, Obama ofereceu um ramo de Oliveira a Teerã, pedindo que o regime “estendesse a mão”. Dois meses depois, Obama emitiu um comunicado ao Irã, reconhecendo os aiatolás como os legítimos representantes do povo iraniano. No mês passado, Obama reconheceu à República Islâmica o direito de enriquecer urânio e, no Cairo, admitiu o envolvimento da CIA na queda de Mossadegh, há mais de meio século.
O povo do Irã possui uma vasta memória e conhece suficientemente bem o imperialismo para odiá-lo de todo o coração. Quando o Primeiro-Ministro Mossadegh foi derrubado no golpe de 1953, organizado pela CIA e pela inteligência britânica, as ditas democracias ocidentais foram cúmplices da substituição da democracia iraniana pela ditadura do Xá. Suas sangrentas e corruptas regras foram baseadas em um reinado de terror em massa onde a famigerada Savak, a polícia secreta, se empenhou em uma campanha sistemática de homicídio e tortura. As ditas democracias ocidentais apoiaram este despótico fantoche do imperialismo e não tinha nada a dizer sobre a escandalosa violação dos direitos humanos no Irã, naquele momento. É por isso que os iranianos não têm a mínima razão para confiar na boa vontade do imperialismo ou ouvir seus sermões hipócritas sobre “democracia”!
Divisões no regime
Após as eleições, em Teerã, foram ouvidos rumores de um golpe de estado. Mas na realidade, isso não era necessário. Ahmadinejad já havia concentrado demasiado poder em suas mãos, já havia criado uma ditadura de fato. Além das forças regulares do Estado, ele controla também a Guarda Revolucionária, que usou brutalmente para esmagar as manifestações na semana anterior às eleições. Ahmadinejad controla o Ministério do Interior, o Ministério da Informação e o Ministério da Inteligência.
Após as eleições as forças de segurança ocuparam os escritórios de muitos jornais, para ter certeza de que os seus relatórios sobre a eleição seriam favoráveis. Esta é uma excelente forma de garantir uma boa cobertura eleitoral! Os guardas estão controlando tudo, inclusive muitas instituições econômicas. O Ministério do Interior está aumentando seu controle em todas as províncias.
Também há rumores de que Ahmadinejad está pensando em mudar a Constituição para permitir que o presidente possa se candidatar mais de uma vez, para tornar sua permanência na presidência indefinida. Ele está reencenando o golpe de Luis Bonaparte, que combinava eleições fraudulentas e intrigas parlamentares com um reinado de terror nas ruas, executado pela Sociedade de Notórios 10 de Dezembro, formada por assassinos, criminosos e lumpens. Sua base social também é semelhante: a retaguarda camponesa, que pode ser usada contra as cidades, que estão mais avançadas.
No último período, Ahmadinejad foi mantido no poder, em parte, graças à repressão e à demagogia anti-americana, mas principalmente, graças à riqueza petrolífera usada em medidas populistas. Este fato garantiu-lhe certa base de apoio na população, sobretudo entre os camponeses. Mas agora a crise econômica e a queda do preço do petróleo reduzem sua margem de manobra nesta frente. Por outro lado, a demagogia "anti-imperialista" está se esgotando. As pessoas não podem comer ogivas nucleares!
A história de regimes ditatoriais e autocráticos mostra que é impossível manter tal regime com base somente na repressão. Uma vez que as massas começam a se mover, nenhum aparato estatal pode detê-las, não importa o quão poderoso ou feroz seja. Essa é a lição da França, em 1789, da Rússia tzarista de 1917 e do Xá do Irã, em 1979. Louis Bonaparte assumiu o poder com um golpe e ficou no poder por duas décadas, mas por fim seu Estado foi terminado pela Comuna de Paris. Ahmadinejad não permanecerá no poder por muito tempo devido a essas razões que temos explicitado, e quanto mais tempo ele se agarrar ao poder, mais explosiva será a situação e se tornarão nítidas as contradições internas do regime.
Apesar da demonstração de força, as fissuras internas que estão dividindo o regime estão se aprofundando. Há vozes no establishment que estão desafiando Ahmadinejad. E não está claro que ele e os Sepah (a Guarda Revolucionária) serão fortes o suficiente para superá-los. O Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, está jogando o papel de Bonaparte, manobrando entre as facções. Haverá confrontos e divisões entre as diferentes facções que refletem uma profunda crise do próprio regime.
Na entrevista já mencionada, Ibrahim Yazdi refere-se ao racha no regime:
“Depois da última eleição [2005], depois de Ahmadinejad ter sido eleito pela primeira vez, havia muitas questões levantadas sobre o esforço de Ahmadinejad para isolar o Líder. Falamos abertamente sobre isso. Desta vez, nos preparativos da votação, eles o isolaram ainda mais. Por exemplo, no ano passado [o ex-presidente] Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, teve influência, talvez mais influência que o líder. Agora, com os slogans sendo usados em comícios de Ahmadinejad, tais como "Morte a Hashemi!". Foi criada uma profunda brecha. Khamenei também perdeu o apoio de muitos altos membros do clero."
Covardia dos reformistas
Os liberais reformistas no Irã e no estrangeiro estão se afogando nas profundezas do desespero. Mousavi se comprometeu a lutar contra o veredicto, usando palavras como "tirania" e acrescentando, "não vou renunciar a esta perigosa ilusão". Antes mesmo de encerrada a votação, Mousavi emitiu uma carta exortando acentuadamente a contagem, exigindo a paralisação por causa de "flagrantes violações" o que ele indicou como um processo injusto.
O líder oposicionista disse que os resultados dos "monitores falsos" refletem "o enfraquecimento dos pilares que constituem o sagrado sistema" do Irã e “a lei do autoritarismo e da tirania.” Fiscais independentes foram proibidos nos locais de votação. "Os resultados anunciados para as eleições presidenciais foram espantosos. As pessoas que estiveram em longas filas e sabiam muito bem em quem tinham votado foram totalmente surpreendidas pelos mágicos que trabalham na televisão e no rádio." Disse Mousavi em sua declaração.
O jornal de Mousavi, Kalemeh Sabz (A Palavra Verde), não apareceu nas bancas de jornal hoje. Um editor falando anonimamente disse que as autoridades tinham sido ofendidas pelas declarações de Mousavi. O site informou que mais de 10 milhões de votos estavam sem os números de identificação, que tornou os votos "desconhecidos".
Como seus partidários tomaram as ruas da capital para enfrentar os cassetetes e o gás lacrimogêneo, Hossein Mousavi lançou formalmente um recurso contra o resultado das eleições. Ele fez um apelo para ao Conselho de Guardiões para inverter o resultado, e exortou os seus partidários para continuar os protestos "de maneira pacífica e legal". "Avisamos aos funcionários que vamos organizar uma manifestação nacional para permitir que as pessoas demonstrem sua rejeição ao processo eleitoral e seus resultados,” disse Mousavi.
O Conselho de Guardiões é constitucionalmente formado por um corpo de 6 clérigos e 6 juristas, que funciona como autoridade eleitoral do Irã e de outros poderes. Ali Khamenei é o Líder Supremo, e ele já afirmou que as eleições tinham sido conduzidas de forma justa e ordenou a três candidatos derrotados e os seus partidários para evitar comportamentos “provocadores”.
A manifestação planejada pela oposição para protestar contra a fraude eleitoral foi proibida. Portanto, o caminho para a reparação por meios legais e constitucionais está bloqueado. A única forma de conquistar direitos democráticos no Irã está tomando o caminho revolucionário. “O Irã”, disse Mousavi, “pertence ao povo e não ao charlatanismo!”. Chegou a falar de uma convocação de greve geral. Mas as palavras são baratas, os dirigentes reformistas burgueses iranianos têm mais medo de um movimento de massas do que o próprio Khamenei.
O Papel da classe trabalhadora
Tal como os cadetes na Rússia, os liberais reformistas no Irã estão aterrorizados com a revolução. Ibrahim Yazdi disse a um repórter americano: "Certamente, estamos preocupados com reações espontâneas. A juventude está empenhada e mobilizada. Em todo o país, já houve alguns confrontos violentos. Nós não concordamos com a violência, porque a violência só justificará a repressão da oposição." E mais: "Não somos subversivos. Queremos criar uma força política viável que possa exercer sua influência." Estas palavras indicam a verdadeira psicologia dos burgueses reformistas no Irã. Eles poderiam ter copiado estas palavras de qualquer jornal dos Liberais russos, em Fevereiro de 1917.
A verdadeira analogia histórica, porém, não é a Rússia de 1917, mas sim a de 1905, ou mesmo antes. Assim como a Revolução Russa anterior a 1905, a revolução iraniana está em sua infância. Tem um longo caminho a percorrer, e esta não é uma coisa ruim do ponto de vista dos marxistas iranianos que precisam de tempo para construir suas forças. Tal como os trabalhadores russos antes de 1905, a classe trabalhadora iraniana é principalmente formada por jovens inexperientes. A velha geração de trabalhadores ativistas, que foram formados principalmente na escola do stalinismo, desapareceu, foi dizimada pela repressão e desorientada pelas falsas políticas de seus líderes.
Vai exigir tempo e experiências, tanto de vitórias como de derrotas, antes que a classe trabalhadora iraniana chegue à conclusão da necessidade da tomada do poder. Lembremos que, em Janeiro de 1905, o jovem proletariado russo entrou na cena histórica em uma manifestação pacífica liderada por um padre, com ícones religiosos em suas mãos, que levavam uma petição ao Czar. Mas um massacre sangrento foi suficiente para levá-los ao caminho da revolução no espaço de 24 horas. Podemos esperar semelhantes mudanças bruscas e repentinas no Irã.
A campanha de Mousavi despertou as esperanças de muitas pessoas, especialmente entre os jovens de classe média e as mulheres (prometeu mais direitos para as mulheres). Agora, essas esperanças foram frustradas. A polícia e a "Guarda Revolucionária" têm dado aos jovens uma excelente lição do valor da democracia iraniana com cassetetes, punhos e botas. A situação continua explosiva. Mas, na ausência de um programa claro, perspectiva e liderança, vão às ruas em protestos e motins que não levam a nada. Por isso provavelmente a atual onda de agitação morrerá por um tempo. Mas ela vai voltar com ainda mais violência, numa fase posterior.
Os reformistas estão esperneando e chorando por causa da derrota eleitoral, mas na realidade estas eleições não resolverão nada para o povo iraniano, para a classe trabalhadora ou até mesmo para o próprio regime. Este regime é frágil como o Velho do Mar, que subiu nos ombros de Sinbad e recusou-se a descer. Estas eleições são apenas mais uma lição na dura escola da vida, o que acabará por convencer os trabalhadores e jovens que, para tirar o Velho do Mar de suas costas serão necessárias medidas muito radicais.
A verdadeira fraqueza do movimento pela democracia é que o poderoso proletariado iraniano ainda não se moveu de forma decisiva, como o fez em 1979. Após longos anos de repressão durante o qual o movimento foi efetivamente decapitado, a classe trabalhadora precisa de tempo para encontrar seu chão. Como um atleta que esteve inativo por um longo tempo, os trabalhadores necessitam esticar seus músculos e se exercitar antes de passar decisivamente à ação. Já houve muitas greves por questões econômicas. A pressão está aumentando de baixo pra cima. Esta pressão tem reflexos, até mesmo na Casa do Trabalho, a organização criada pelo regime para controlar os trabalhadores. No atual período, o jornal oficial da Câmara do Trabalho, publicou um artigo de Lênin. Como os tempos estão mudando!
O Irã é formado em sua maioria por jovens. A população tem uma idade média de 27 anos. Estas pessoas podem não se lembrar do tempo em que os Mulás não estavam no poder. Há muito tempo os Mulás foram considerados como incorruptíveis, em contraste com a degenerada monarquia pró-ocidental. Mas isso foi há muito tempo. Depois de décadas no poder, os Mulás foram expostos como um regime corrupto e estão perdendo a autoridade que costumavam ter. Ahmadinejad enviou ônibus para seus partidários das aldeias para participar das manifestações em seu apoio. Sua base real é a Guarda Revolucionária, mas esta já não inspira o tipo de terror que inspirava no passado. A coisa mais significativa sobre os motins neste fim de semana não foi o fato de serem reprimidos, mas que muitas pessoas estavam dispostas a ir para as ruas para desafiar o Estado e suas forças repressoras. Isto significa que os dias do regime estão contados.
No final, tudo isso resultará em crise. Este será um governo de crise, provavelmente seu mandato não durará muito. As divisões políticas e sociais no interior do Irã serão ampliadas. A militância dos trabalhadores irá crescer e se manifestar primeiramente em greves econômicas, por melhores salários e condições, como já vimos nos últimos anos e, mais tarde, como greves e manifestações políticas. A necessidade mais urgente agora é organizar os trabalhadores e proporcionar ao movimento um programa correto, uma política e uma bandeira. Isto só pode ser alcançado pela bandeira vermelha do socialismo.
É muito natural que os jovens joguem um papel fundamental nesta etapa da revolução. É muito similar à situação na Rússia de 1901-03 ou na Espanha de 1930-31, pouco antes da queda da monarquia. Neste momento Trotsky escreveu:
“Uma vez que a burguesia se nega, consciente e obstinadamente, a resolver os problemas impostos pela crise que sofre o regime; uma vez que o proletariado ainda não está disposto a encarregar-se de resolver estes problemas, não é raro que a cena seja ocupada pelos estudantes... A atividade revolucionária ou semi-revolucionária dos estudantes mostra que a sociedade burguesa atravessa uma crise muito profunda...
Os trabalhadores espanhóis manifestaram um instinto revolucionário muito correto, ao apoiar as manifestações dos estudantes. Está claro que precisam trabalhar sob sua própria bandeira e sob a direção de sua própria organização proletária. O dever do comunismo espanhol é assegurar esta ação e para tanto é indispensável que tenha uma política justa...
Se os comunistas tomarem este caminho, há que se admitir que combaterão resoluta, audaz e energicamente pelas consignas democráticas. Se não se entende a coisa assim, cometer-se-ia um gravíssimo erro sectário...
Se a crise revolucionária se transformar em revolução ultrapassará fatalmente os limites previstos pela burguesia e, em caso de vitória, será preciso que o poder seja transmitido ao proletariado”. (Trotsky, Problemas da Revolução Espanhola, Maio de 1930).
As forças dos marxistas iranianos são pequenas, mas crescem a cada dia. Combinando habilmente as reivindicações democráticas com as reivindicações transitórias, vinculando as lutas cotidianas com a idéia da revolução socialista, conectar-se-ão com uma camada cada vez mais ampla de trabalhadores e estudantes que buscam uma mudança fundamental da sociedade. O futuro do Irã está no caminho revolucionário e a revolução iraniana está destinada a sacudir o mundo.
Os tribunais de “justiza” da Autoridade Palestiniana -quer dizer, de Fatah- vêm de sentenciar a morte a essa mulher de 22 anos [ver foto] da que não se nos tem proporcionado em sítio algum o seu nome. Tanto tem. É já um corpo anônimo que se tambalea com o rosto coberto como os de Guantánamo ou Abu Ghraib –só que a esta lhe vam dar matarile. Essa mulher, que provavelmente fique no anonimato para sempre, diz que passou a Israel informação sobre atentados terroristas que os palestinianos tinham em projecto. Informação que a Autoridade Palestiniana deveria ter proporcionado e não proporcionou –contrariamente ao comprometido nos Acordos de Oslo e na Folha de Ruta. Lógico: a Autoridade Palestiniana é a mesma que planifica os atentados contra Israel. Isso sabemo-lo todos menos Hussein Obama e a dona de “Bragueta Rápida” Clinton -que fazem como que não se inteiram. Os jornais progressistas, como o pro-árabe Ha’aretz, fazem fincapê em que, bah, esse tipo de sentenças “quase nunca” se levam logo a cabo. Os terroristas palestinianos são gente de palavra e de fiar, já se sabe. Misséria moral em estado puro. Nem os guevaristas de Amnesty International, nem organização “feminista” alguma considerarão que tenham nada que dizer. Susan Sarandon e o cesto grande do seu marido (não sei quantos Robin) não fazerão um lacrimôgeno filme de denúncia, nem sequer uma curtametragem. Ari Folman também não; está muito ocupado em plasmar no celuloide o ódio face o seu próprio país. Contrariamente ao alboroto mediático que se montou há umas semanas contra Iran para que soltassem à jornalista de orige norteamericano Roxana Saberi, nenhum grupo de direitos humanos moverá um dedo por salvar a vida desta “reaccionária” que espiava para o Estado sionista de Israel. Mortos de segunda. Nossos sócios para a “Paz”.
A derrota militar dos Támis do Sri Lanka
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Vitor Martins informa sobre este tema de raivosa actualidade.
http://outraesquerda.blogspot.com
No Sri Lanka, a antiga Ceilám batizada polos portugueses, a maioria cingalesa de religiom budista, hegemónica após a independencia de 1948, discriminou à minoria támil, uns 3 milhons de pessoas, de religiom hinduista, tanto aos nativos como aos Támis importados como colonos polos británicos do sul dravídico indiano no século XIX para trabalhar as plantações en regime de semiescravidom.
A imposiçom do nacionalismo populista cingalês budista na Constituiçom de 1972 provocou o nascimento de um nacionalismo radical támil, que alentou a formaçom desde 1975 de vários grupos armados, sendo o mais importante deles o dos Tigres do Támil. A polarizaçom étnica que seguiu deu lugar a umha guerra em 1983 que, trás 25 anos e causar 70.000 mortos, chegou ao seu fim o passado 17 de Maio.
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[Figuras referenciadas ao final da postagem]
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Sri Lanka, é umha ilha situada frente às costas indianas surorientais com umha populaçom de 19 milhões de habitantes, dos quais 74% som Cingaleses e 18% Támis (13% nativos e 5% trasladados polos británicos do sul da Índia). Os Támis, de fala dravídica e religiom hinduista, moram nas províncias do norte –a península de Jaffna- e do Leste, onde conformam, respectivamente, o 98% e o 45% da populaçom. Os Cingaleses, de língua sánscrita e religiom budista, moram nas sete províncias restantes, conhecido como o Sul. Existem também minorias de Mouros e Malaios (50.000), e grupos religiosos mussulmanos (7%) e cristaos (8%).
A parte costeira de Ceilám foi ocupada desde o século XVI por sucessivos colonizadores europeus, Portugueses, Holandeses e, desde 1796, Ingleses. No interior da ilha existiu um reino cingalês que manteve a sua independência até 1815. O Império británico implantou na ilha umha economia colonial de monocultivo baseada exploraçom dos recursos naturais (café, chá, coco e cauchu). Para isto necessitou importar mao-de-obra semiescrava do sul do subcontinente indiano (da zona onde hoje se acha o Estado de Támil Nadu e com 66 milhões de habitantes).
Sri Lanka obtivo a sua independência em 1948, trás a da Índia. A sua Constituiçom, a foi a dum Estado centralizado segundo o modelo británico. A língua cingalesa é tratada como a única oficial do país e estabeleceu-se um sistema de checks and balances polo que o Parlamento mantinha umha proporçom de 3 a 2 entre os eleitos Cingaleses e as minorias e umha cláusula constitucional salvaguardava os seus direitos étnicos.
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O Partido Nacional Unido (UNP), representante dos Cingaleses anglófilos e conservadores ganhou as eleições. A pressom dos camponeses Cingaleses da montanha impom umha lei de 1949 que exclui da cidadania e do voto os Támis trazidos como colonos da Índia. Em 1952 os Támis do UNP constituem um partido federalista. A Frente Popular Unida esquerdista de Bandaranaike, ganhou as eleições de 1956, mas a força social que predominava na coaligaçom era a Frente Unida dos Monges, que fez do nacionalismo budista a nova ideologia dominante e conseguiu que o singalês fosse declarado única língua oficial do Estado. Bandaranaike tentou pactuar umha soluçom com os federalistas Támis mas foi assassinado em 1959 por um monge budista. Porém, quando a sua viúva acedeu ao poder em 1960 a sua política procurou a resurreiçom da «grande cultura cingalesa». Em 1965 UNP ganha as eleições graças a umha coaligaçom na que faziam parte os federalistas támis, mas as suas reivindicações forom desouvidas mais umha vez. Ao volver a viúva Bandaranaike ao poder e sob a pressom dumha Frente de Libertaçom Nacional cingalesa que se levantou em armas, promulgou-se em 1972 umha constituiçom republicana que impuxo brutalmente o domínio da maioria budista e cingalesa.
Os Támis, em consequência, começarom a reclamar a partir de 1972 um Estado independente. Emergeu no seu seio umha liderança solidamente implantada na península de Jaffna, de extracçom mais popular e antiociental que o antigo federalismo. O novo nacionalismo támil, inspirado nos modelos palestiniano e vietnamita, pôs em prática a luta armada para conseguir o controlo do território que habitava. Forom surgindo assim distintos grupos que atacavam forças de segurança e colaboracionistas. O grupo mais forte foi o dos Tigres da Libertaçom do Támil Eelam (LTTE), criado em 1975 e dirigido por Velupillai Prabhakaran, que acabou por se impor nos oitenta.
As eleições de 1977 polarizarom-se entre a UNP, que aglutinou o conjunto do nacionalismo cingalês e a Frente Unida de Libertaçom do Támil, que conseguiu os doze escanos da província do Norte e quatro dos doze da do Leste, convertendo-se no maior partido da oposiçom da ilha. As tentativas do governo de negociar com os Támis moderados para os afastar radicais nom derom fruto. Para sufocar a insurreiçom do Norte, reformou-se a Constituiçom de 1978 em sentido presidencialista, aprovou-se em 1979 um Acta de Prevençom do Terrorismo e enviou-se o Exército aos territórios sublevados, mentres que os Támis que viviam no Sul eram objecto de umha crescente violência social.
O conflito étnico converteu-se assim em guerra, trás um atentado no que os Tigres abaterom em Julho de 1983 a treze soldados. A populaçom cingalesa voltou-se no Sul contra todos os Támis que toparom, massacrando a milhares deles e forçando a fugida de outros 90.000 ao Estado indiano de Támil Nadu. Os campos de refugiados dos arredores de Madrás converterom-se em ninhos onde os grupos támis recrutavam os seus combatentes (que chegariam a 6000). Após umha tentativa de reuniom em 1984 dos cinco grupos mais importantes, os Tigres acabarom por se impor polo expeditivo método de dar morte aos quatro rivais da Organizaçom Popular e Libertaçom de Eelam Támil (PLOTE), Organizaçom de Libertaçom de Îlam Tamil (TELO), a Frente de Libertaçom Revolucionaria Popular de Îlam (EPLRF) e do EPDP. Nom lhes custou muito apoderar-se da zona da península de Jaffna.
Em Julho de 1987 o exército do Sri Lanka lança a primeira operaçom militar no seu próprio solo desde a independência do país com o objectivo de expulsar os simpatizantes dos Tigres do Támil de Jaffna, onde viviam 750.000 pessoas assediadas polo Exército e bombardeadas pola aviaçom, sem subministros e com umha taxa de desemprego do 40%.
A solidariedade que esta situaçom despertou no sul da Índia, que conhecia à sua vez um movimento nacionalista dravídico, acabou envolvendo o Governo indiano no conflito, fazendo de mediador para conseguir a abertura de negociações entre as duas partes, primeiro em Thimpo (Bhutám), e porfim em Colombo, a capital de Sri Lanka. Fruto indirecto destes encontros foi o Acordo Indo-Lanka de 1987, polo que o governo cingalês se comprometeu a criar uns Conselhos Provinciais que conferiam certos poderes a todas as províncias da ilha, e nom só às Támis, o que se supunha resolveria o conflito. A Índia comprometia-se a enviar a Sri Lanka umha força militar de paz duns 45.000 homens que supervisaria o cumprimento do Acordo e desarmaria os grupos támis.
O Acordo, que com todas as suas limitações dava forma institucional por vez primeira ao carácter multiétnico e plurinacional da ilha, foi aceitado ao princípio pola oposiçom cingalesa e polos Tigres do Támil, que respeitarom durante certo tempo um cessar-fogo embora nom se implicassem nas eleições derivadas dele. Estas celebrarom-se no sul cingalês em Abril de 1988, e no Norte e Leste támis em Novembro desse ano, com presença indiana. Aqui, a Frente Revolucionária do Povo de Eelam ganhou-as amplamente.
Ao cabo de ano e meio os Conselhos Provinciais criticarom as limitações legais derivadas dumha emenda constitucional que devolvia ao Governo central competências que foram outorgadas em matéria de ordenamento rural, polícia, segurança, educaçom e administraçom pública. Aliás, as tropas indianas de paz pronto se converterom em forças repressivas. O governo de Sri Lanka pediu em 1989 a retirada das forças indianas e iniciou novas negociações com os Tigres. Os Conselhos Provinciais do Norte e Leste proclamarom pola sua parte o Estado Támil independente, polo que forom dissolvidos.
Em Março de 1990, dous meses depois da retirada indiana, as negociações romperom, reanudando-se no Norte umha guerra a grande escala. Os Tigres, aos que se atribuiu o assassinato em atentado do ex-presidente indiano Rajiv Gandhi em 1991 derom morte ao presidente de Sri Lanka Premadas em 1993. Kumaratunga, viúva dum líder da Frente Popular abatido polos Tigres em 1988 e filha do assassinado Bandaranaike, ganhou as eleições em Novembro de 1994 contra outra viúva, cujo marido, líder do UNP Disanayake, acabava de ser assassinado em atentado um mês antes.
Contrariamente ao UNP, o programa da Frente Popular contemplava reiniciar as negociações de paz com os Támis, rotas em 1990, a fim de relançar e melhorar o projecto que convertera a Sri Lanka numha uniom de províncias autónomas dotadas dum alto grau de autonomia nos oitentas. Mas o cessar -fogo acordado polos tigres em Janeiro de 1995 foi roto quatro meses mais tarde ao exigir-lhes o desarmamento como condiçom para iniciar as conversas de paz. A ofensiva lançada polo exército do Sri Lanka em Outubro de 1995 culminou em Dezembro de 1996 com a tomada do quartel geral támil na península de Jaffna.
Em 30 de Janeiro de 1996 um sangrento atentado dos Tigres num banco de Colombo causava um centenar de mortos. Em Julho, os Támis, que ao ser expulsos de Jaffna se atrincheiraram na selva, atacarom umha base militar causando mil baixas ao exército do Sri Lanka. A ofensiva terrestre, aérea e naval lançada polo governo contra o quartel geral dos Tigres em Killinochi nom acabou com a sua resistência.
Em Maio de 1997, 20 mil soldados governamentais nom dá organizado umha linha de fornecimento cara Jaffna através da zona de Vanni controlada polos LTTE. Nestas operações a populaçom civil é habitualmente assassinada en cada lado.
Em Março de 1999 durante a Operaçom Rana Gosa o exército cingalês invade o distrito de Vanni polo Sul, conquista vários territórios, mas nom consegue derrotar os Tigres na regiom. Em resposta, estes lançam umha ofensiva com a Operaçom «Ondas Incessantes», retomando os territórios ainda ocupados polo exército.
Em Abril de 2000 os Tigres lançam umha nova ofensiva em direcçom ao norte e atacam a Passagem dos Elefantes onde se reagrupam 17.000 soldados cingaleses. Em 22 de Abril tomam o controle desta zona estratégica que corta a península de Jaffna do distrito de Vanni desde 17 anos.
Os Tigres instauram unilateralmente um cessar-fogo em Dezembro de 2000. Em Abril de 2001 o exército governamental lança a operaçom Agni Khiela tentando retomar, sem sucesso, o sul da península de Jaffna.
Após vários anos de guerra civil e de embargo económico na parte norte da ilha, o país entra entre 2002-2005 num período conhecido como «pós-conflito». Os Tigres, que controlam a costa oeste da ilha e una zona circunscrita no norte, moderam as suas exigências e procuram umha autonomia económica e política no seio do Estado cingalês, declarando que a luta militar nom é um bom método para atingir os seus objectivos. No fundo, após os atentados terroristas de 11 de Setembro nos Estados Unidos, acha-se o receio dum possível apoio internacional para o exército do Sri Lanka, ou mesmo sobre um possível ataque internacional.
Aliás, a poderosa guerrilha Támil é umha das poucas que conta com umha marinha de guerra (Tigres Marinhos), com capacidade de levar a cabo batalhas navais para controlar as vias e aprovisionamento da ilha. Igualmente, umha unidade chamada Tigres Negros é a encarregada de organizar atentados suicidas contra as forças regulares. Desde 1987, ano do seu primeiro ataque suicida, esta unidade realizou mais que qualuqer outra organizaçom no mundo. As táticas usadas polos tigres do Támil resultarom na sua classificaçom como organizaçom terrorista nos EE.UU., no Brasil, na Austrália, na UE e no Canadá.
Para retomar a iniciativa o governo cingalês aumenta o orçamento da defesa (5% do PNB) e os efectivos do seu exército (aumento do 500% entre 1985-2005). Nestas condições em 2005 o exército do Sri Lanka rompe a trégua desistindo ao cessar-fogo em repetidas ocasiões. Em 2008 a coaligaçom de governo central na Índia, integrada pola primeira vez polo partido pró-támil, viu-se abalada pos protestos baseados no nacionalismo támil, para que começasse a apoiar os támis de Sri Lanka e do qual se esperava mais apoio indiano para com os támis no Sri Lanka. Todos os partidos támil do Estado indiano do Támil Nadu exigirom o cessar-fogo imediato. Como contrapartida, os támis do Sri Lanka acusam o próprio povo támil indiano de apoiar os Cingaleses.
As sucessivas ofensivas governamentais desde 2007 fam recuar o território controlado polos independentistas támis. A partir de Novembro de 2008 o exército cingalês começou umha ofensiva indiscriminada sem precedentes que consegue, a partir de Janeiro-Fevereiro de 2009, ocupar todas as cidades controladas polos Tigres támis, incluída Kilinochchi, a «capital» rebelde. Os Tigres, que começam a recuar em larga escala, solicitam um cessar-o-fogo que é rejeitado polo governo.
Em 25 de Abril de 2009 os independentistas ficam confinados numha zona de 48km2 rodeados polo exército cingalês, mas a presença de mais de 50.000 civis complicam a situaçom humanitária. E, 16 de Maio os Tigres perdem o seu acceso ao mar, vital para o seu fornecimento. O dia 17 os independentistas támis anunciam o fim dos combates e a deposiçom de armas. Mais de 250 dirigentes e quadros dos Tigres som abatidos nos últimos combates nas praias de Mullaitivu. Em 18 de Maio as autoridades cingalesas anunciam a morte de Velupillai Prabhakaran, dirigente histórico dos Tigres. O governo de Sri Lanka declara a derrota militar final dos Tigres do Támil.
Segundo as Nações Unidas, o último ataque governamental causou o desalojamento de 265.000 pessoas em campos de refugiados, a morte de mais de 6.500 civis e 14.000 feridos.
BIBLIOGRAFIA
«Juego de espejos: conflictos nacionales centro-periferia». F. Letamendia. Edit. Trotta (1997)
MAPAS
FIGURA 1
Percentagem de Támis por distrito segundo os recenseamentos de 2001.
FIGURA 2
Situaçom em Dezembro de 2005. Em vermelho, zonas controladas polos Tigres. Em laranja, zonas controladas polo governo com áreas controladas polos Tigres. Em amarelos, zonas controladas polo governo e reivindicadas polos Tigres para um Estado támil independente.
FIGURA 3
Situaçom territorial em Julho de 2007.
FIGURA 4
Zona reivindicada (em verde) polos Tigres támis e território controlado de facto (limites aproximados em amarelo) no momento do lançamento da ofensiva governamental de 2008-2009.
Las voces bajas de la historia
El crítico Xesús González edita las cartas de su padre, superviviente de Mauthausen
DANIEL SALGADO - Santiago - 31/05/2009 Albino González González remite su primera carta tras sobrevivir a cinco años en el campo de exterminio de Mauthausen. "Después de cuatro años te escribo estas líneas, para que sepas solamente que aún vivo, y que vivo pensando en ti", escribe, "en la lucha tan larga y dura que se me ha impuesto para vivir, no he olvidado, por ello, el recuerdo de un ser que me ha sido siempre querido". Era el 6 de agosto de 1945 y la destinataria, María Gómez Torres, "mi inolvidable Marujita", no sabía de Albino desde 1939, cuando fue internado en Argelés, al sur de Francia. El hijo de ambos, Xesús González Gómez, acaba de recoger en el volumen Cartas a la novia (Edicions Documenta Balear, 2008) 26 muestras de aquella correspondencia.
"Estas cartas", argumenta González Gómez, crítico literario, traductor y escritor, "revelan una resistencia moral y física al fascismo que no aparece en los libros de historia". González Gómez habla, con la misma expresión que utilizó en su día para la novela Os libros arden mal, de "las voces bajas" del siglo. No son misivas de lucha, no declaran resentimiento ni necesidad de reorganizar las fuerzas, sino que reflejan al individuo zarandeado y superviviente, el hombre que sale del infierno nazi con 30 años y 36 kilos de peso.
Albino González había nacido en Moles, comarca de Valdeorras, en 1915. El alzamiento fascista de julio del 36 lo cogió en San Sebastián y lo llevó al ejército republicano. Capitán, comandante, teniente coronel y, ya con el Ejército Popular constituido, comisario político, González lo fue casi todo en defensa de la II República. Y también en aquel tiempo de guerra conoció a María Gómez Torres, la que diez años más tarde se convertiría en su esposa y madre de Xesús González Gómez.
"Desde Argelés [el campo de concentración donde el Gobierno francés recluyó a parte de los republicanos españoles exiliados en 1939] escribió algunas cartas, enviadas a través de la Cruz Roja; mi madre las quemó", recuerda. Del inhóspito lugar que las democracias europeas reservaron a los perdedores de la Guerra Civil, González González pasó a la resistencia francesa. Pero en julio del 40, París caía bajo la bota nazi, y en agosto las divisiones alemanas atrapaban al combatiente de Valdeorras. Junto a más de 7.000 españoles -los historiadores cifran en un 2% el porcentaje de gallegos-, Albino pasará cinco años en Mauthausen. Los tenues indicios de organización de los presos contarán con su experiencia. "Llegó a ser algo así como responsable de barracón", apunta el hijo.
"Las últimas noticias que recibió mi madre datan de los primeros meses en Mauthausen". La comunicación se corta y hasta la liberación de Francia, la pareja pierde todo contacto. "Pienso que te extrañará mucho recibir esta misiva mía tan tardía, pero la primera por la posibilidad", comienza la primera carta de Albino remitida desde Francia. La respuesta de Marujita revela que ella "ha respetado" la ausencia. A los dos años, ya se habían casado: Vivían en A Rúa.
Albino González ya no volvió a la política activa. Y aunque esta correspondencia deja entrever la dureza de la época, él no entra en contacto con la clandestinidad. "Sin embargo, el primer 14 de abril [aniversario de la proclamación de la República] que pasa en Galicia, la Guardia Civil lo mete en el cuartelillo", explica Xesús González. La sombra del pasado no se apartaba de un Albino que reconstruyó su vida como empresario del chocolate, asociado con quien se convertiría en presidente de la Preautonomía, José Quiroga. En 1966, emigró con su familia a Barcelona.
"Nunca me habló directamente de Mauthausen", apunta el hijo, que conoció la historia por su madre. "Cuando todavía vivíamos en A Rúa", rememora, "estaban levantando un embalse con técnicos franceses; mi padre hablaba con ellos en francés y yo iba entendiendo". El comisario político y preso de Mauthausen, que pasó los últimos días de su vida reclamando indemnización de los Estados alemán y español (sólo atendió Alemania), murió en Castellón en 1981.
Isto sucedeu en menos de 72 horas esta mesma semana.
1-) Unha casa de Sderot resultou alcanzada por un foguete disparado desde Gaza,
2-) Irán probou un mísil capaz de colocar en calquera punto de Israel calquera tipo de bomba que queira Ahamideyad, convencional, biolóxica ou nuclear (cando a teña)
3-) O xefe de Hizbullah, Hassan Nasrallah, declarou que a súa organización está disposta a "unha nova guerra total contra Israel".
Pero, ao parecer, o verdadeiro problema é a tozudez do primeiro ministro de Israel a realizar grandes concesións sen que ninguén máis mova un dedo. Os xornalistas aseguramos:
1-) que está a fomentar novos asentamentos en Cisxordania. Esta semana forrámonos a explicar que se empezou a construír un novo: Maskiot. Pero onte xoves, as forzas de seguridade desmantelaron un e diso, nin unha palabra.
2-) que se nega a negociar nada, cando todo o Gabinete israelí non se discute se haberá retirada final dos últimos redutos do Sur do Líbano, senón cando se producirá a retirada.
3-) que se nega a recoñecer aos palestinos o dereito a un Estado pero ocultamos que nin son os palestinos os que se negan a recoñecer o caracter nacional do estado de Israel e ademais nin sequera as dúas grandes faccións palestinas son capaces de porse de acordo sobre iso.
4-) que se nega a dividir Xerusalén. é dicir, pasámonos o día criticando "o muro" pero nos parece estupendo que se levante outro.
Francamente, non entendo nada. A ameaza sobre Israel non é palabrería senón algo que calquera pode comprobar (primeiro parágrafo) que carallo se lle conta á xente?
Velaí un vídeo dunha publicidade israelí. De verdade que a recomendo para que se vexa o lavado de cerebro intolerante ao que se somete aos isralíes.
Arredor de 40.000 persoas recuperan o espírito das mobilizacións contra a marea negra do "Prestige" para rexeitar a política lingüística do Partido Popular "O galego une", un dos lemas que usa a Mesa pola Normalización Lingüística nas súas campañas, foi onte máis certo ca nunca na manifestación que concentrou en Compostela miles de persoas para rexeitar o desregulamento do idioma propio do país proposto polo goberno do Partido Popular (PP). A manifestación, convocada pola Mesa e apoiada por 600 colectivos, converteuse na máis multitudinaria en Galicia desde as marchas pola marea negra do Prestige no 2002 e nun fito histórico das mobilizacións para a defensa do galego, advertencia clara ao presidente Alberto Núñez Feijóo de que a conflito lingüístico aberto polo seu partido na pasada campaña electoral pode ser só o comeza dun incendio que sacuda a lexislatura. Nin o frío nin as continuas chaparradas impediron que arredor de 40.000 persoas marchasen durante case tres horas polas rúas da cidade desbordando as máis optimistas previsións dos organizadores. De feito, a Praza da Quintana, onde concluía o percorrido, tivo que ser baleirada dúas veces para dar cabida a todos os asistentes, repetindo en cada ocasión a lectura do manifesto. Gaitas, pandeiretas ou caracolas acompañaron a manifestación nun espectáculo onde non só se vían as pancartas de partidos como o BNG, sindicatos como a CIG ou a CUT ou organizacións como Galiza Nova. Máis alá das bandeiras coa estrela vermella, o que había eran carteis con enormes corazóns, familias enteiras berrando "En Galicia, en galego!" e manifestantes sen unha adscrición política concreta que fan pensar no rexurdir do movemento social xestado a finais dos anos noventa e elevado ao rango de fenómeno de masas con Nunca Máis. Nun dos seus discursos máis incisivos e enxeñosos, o presidente da Mesa, Carlos Callón, arremeteu especialmente contra Núñez Feijóo e a súa tese recente de que el defendería a linguas dos que pretenden apropiarse dela, en alusión ao nacionalismo galego. "Que se apropie o seu goberno", escenificou Callón sobre o estaribel, "que se apropie a conselleira de Sanidade, analfabeta en galego. Que se apropie o consell eiro de Economía, Javier Guerra, analfabeto en galego tamén. Que se apropie a conselleira do Mar, Rosa Quintana, que quixo xurar o seu cargo en castelán, como se fose tan difícil aprender dúas frases en galego". Callón tamén criticou o conselleiro de Cultura -"exhibe moito curriculum cosmopolita pero non ten vergonza de dicir que a cultura galega está moi ben, pero é limitada"- e a "demagoxia e manipulación" do Goberno do PP. "As persoas que falamos en galego tamén temos dereitos civís" e "o feito de gañar as elección non fai que as mentiras se convertan en verdade". Desde esta prespectiva, o presidente da Mesa advertiulle a Feijóo que "non conten con ningún consenso para reducir a nosa lingua". O acto concluíu coa lectura do manifesto en defensa do galego "impulsado por 30 personalidades" en xuño de 2008 e que conta xa "con máis de 20.000 apoios individuais e de 600 entidades sociais, deportivas e culturais".
Durante a súa lectura -que se realizou en dúas ocasións- as escritoras Teresa Moure e Yolanda Castaño pediron "igualdade de dereitos entre galego e castelán". Pola súa banda, Avelino Pousa Antelo e Nemesio Barxa recordaron que o Consello de Europa advertiu que en Galicia "non se aplican os tratados internacionais para promocionar a lingua no ensino ou os servizos públicos" e que lle corresponde ó pobo galego definir a súa política lingüística a través das institucións". O portavoz nacional do BNG, Guillerme Vázquez, deputados deste partido como Teresa Táboas ou Carlos Aimerich, escritores como Bernardino Graña, Cesáreo Sánchez e Manuel Rivas, militantes socialistas como Mercedes Rosón, o patriarca nacionalista Xosé Manuel Beiras, o cineasta Antón Reixa ou a académica Margarita Ledo -que prefriu Compostela a Láncara, sede da sesión extraordinaria da RAG- son algúns dos nomes que acompañaron desde distintos ámbitos aos manifestantes."Unha lingua", díxolles Manuel Rivas aos periodistas, "só nace unha vez. É un don marabilloso que pertence ao mundo" e "aínda que existan 5.000 non chegan". Son, engadiu, como "6.000 ríos ou 6.000 bosques, que sempre parecerán poucos". E o mesmo que cómpre defender a natureza, a defensa do galego é "unha obriga" porque o benestar da lingua "está asociada ao benestar xeral".
REACCIÓNS A "desconfianza" de Feijóo O presidente da Xunta de Galicia, Alberto Núñez Feijoó, expresou onte a súa "desconfianza" cara a "aqueles que queren apropiarse do que é de todos", en referencia ás 40.000 persoas que onte se manifestaron en Compostela en defensa do galego. "Creo que tódalas manifestacións en democracia son lexítimas. Se hai un partido político e outras organizacións afíns que queren manifestarse, só podemos expresar ou noso absoluto respecto. Defender o galego dende a liberdade e promocionar a lingua galega dende o bilingüismo cordial é a posición maioritaria na que conflúe a sociedade galega e na que está instalado o Goberno da Xunta", dixo. "O galego", engadiu, "é de todos, non ten siglas e é un idioma oficial en Galicia, xunto co español". Na mesma liña, garantiu que a Xunta "protexerá" e "promocionará" este idioma.
"Quero mostrar o meu total desacordo con a decisión tomada, a instancia de CiU, pola Comisión Executiva en funcións do BNG, e depois polo Consello Nacional, sobre a renuncia ao escano de deputado que me pertence. Creo que tomaron unha decisión moi prexudicial para Galiza e o que nela representa o nacionalismo galego. Perante a posibilidade de estar como BNG no Parlamento Europeu no remate desta lexislatura a Comisión Executiva aceitou decontado as posicións de Converxencia e Unió, a mesma que contra os nosos intereses acababa de romper o pacto Galeusca que outorgaba a Galiza a terceira posición na candidatura das eleicións europeas. A negativa Carta de CiU nen siquer foi apresentada na reunión da Comisión Executiva que tomou a decisión favorábel a organización catalá.
Coido tamén, e teño abondas razóns obxectivas para facelo, así que na decisión tomada e na forma de facelo influi determinantemente o feito de que defendo e partillo con compañeiras e compañeiros no BNG, e con muita xente da nación, ideas diferentes ás da maioría actual na direción da organización.
Ainda así, teño a intención de renunciar a acta de deputado no Parlamento Europeu.”
1.-“Demitido o deputado Ignasi Guardáns (depois de serlle negada por CIU a posibilidade de apresentarse de novo nas eleicións europeas e como consecuencia de incorporarse a un cargo no Ministerio de Cultura do Governo do Estado) correspóndeme legalmente substituilo por ocupar a terceira posición como candidato do BNG, logo do deputado do PNV Josu Ortuondo. A pasada semana o Parlamento Europeu debe principiar o proceso de substituición para ser trasladado á Xunta Eleitoral Central do Estado Español, organismo que comprobada a lista apresentada debe dar resposta á Camara europea.
2.-A ocupación do escano non sería debida a ningunha ilexítima pretensión pola miña parte, como deu a entender a Comisión Executiva, nen sería un simples produto da miña vontade, senón a consecuencia legal da posición mantida na lista conxunta. Sería en todo o caso coerente co Pacto de Coalición Eleitoral de Galeusca, que asinamos os candidatos.
4.- Teño a convición de que a entrada do BNG ao final da lexislatura tería un carácter simbólico beneficioso para o nacionalismo na campaña eleitoral que se aviciña.
5.-Mais, depois de receber unha Carta de Convergencia i Unió na que demandaba a miña renuncia, dirixentes do BNG aceitaron decontado as posicións da mesma organización catalá que acababa de romper o pacto Galeusca no que BNG ocupaba o terceiro lugar nas listas eleitorais.
6.-A Carta de CiU non foi posta en coñecimento dos membros da Comisión Executiva que, celebrada o 22 de abril, tomou estrañamente unha decisión favorábel a esa organización e contraria aos intereses do BNG. A maioría dos membros da Comisión Executiva, e todos no sentido formal, ignoraban o contido concreto da Carta. Afectado directamente, eu tamén o descoñecía. Pasaron dous días até que o 24 de Abril me fixeron chegar a nota que enviaran aos medios de comunicación e os documentos que pretendían xustificar a renuncia pedida por CiU.
7.-A Carta tampouco foi apresentada como tal ante o Consello Nacional do sábado 25 de Abril, cuxo contido foi dado a coñecer por min nese acto. Membros da Comisión Executiva tiveron noticia por esta vía do contido exacto da mesma.
8-Depois de manter o silencio posíbel, defendin a miña postura perante o Consello Nacional, o orgao ao que lle corresponden as decisións políticas depois da dimisión da Comisión Executiva a consecuencia do fracaso nas eleicións galegas. Dixen que os termos e os argumentos da Carta refletían moi discutíbeis intereses de CiU, que non respeitaban o sentido do Pacto de Coalición e eran contraditorios cos intereses do BNG.
9.-Depois de facer apelación ao Pacto da Coalición Eleitoral, e en particular a Norma Oitava do mesmo, a Carta de CiU reclamaba que “o candidato Camilo Nogueira, do BNG, presente a súa renuncia a tomar posesión da súa acta de eurodeputado”. Non a pedían, surpreendentemente en favor do cuarto candidato, de Unió Democrática, que parece estar separado de CiU, senón do quinto militante de Convergencia, o outro partido da federación CiU. Agregaban que reclamaban a renuncia “tamén para evitar alteracións laborais na equipa de asesores a cargo de CiU”, engadindo: “trátase tan solo de manter a continuidade da equipa até o mes de xullo, data en que tomarán posesión os novos deputados”, asunto que podía arregrarse sen renunciar aos intereses galegos e do BNG outorgándolle a CiU o direito a receber a asignación para secretariado proporcionado polo Parlamento.
10.-En todo o caso, a cuestión central reférese á interpretación daquela Norma oitava do Pacto de Coalición, referente á substitución no caso de “falecimento, incapacidade ou renuncia de un deputado”. A Norma di que nese caso “os partidos integrantes da Coalición se comprometen a posibilitar o acceso á condición de Deputado a outro candidato pertencente á mesma formación política que o que causa baixa, para respeitar a proporcionalidade que saia das urnas”, rematando con unha frase referente a que os partidos se comprometen a por esta circunstancia en coñecimento de todos os integrantes da candidatura, chamamento este que pertencente ao Protocolo global da Coalición que asinamos os candidatos e debemos respeitar.
11.- Contra a decisión tomada pola Comisión Executiva do BNG, tan prexudical para Galiza e o nacionalismo galego, defendín no Consello Nacional que esa “proporcionalidade saida das urnas” está máis que respeitada tendo en conta que CiU tivo o escano cinco anos, entanto que o BNG non o ocuparía máis que un mes até o momento das eleicións e outro máis até a toma de posesión dos novos deputados. Non se trataría, pois, de no cumprir os acordos con CiU e o PNV, ou de non respeitar a literalidade dos acordos, como pretendeu a Comisión Executiva, senón de consideralos desde o ponto de vista galego, utilizando unha argumentación máis correcta, racional e xusta.
12.-Débese lembrar que, contra os argumentos difundidos pola Comisión Executiva en funcións esa cláusula non se refere para nada a acordo de non rotación contemplado no Pacto de Coalición, senón a unha situación sobrevinda que, obviamente, se pode dar tanto se existe o acordo de rotación como se non.
13.-Non está en demais recordar de novo que foi a organización catalá a que, negándolle a última hora ao BNG o terceiro posto nunha coalición posíbel para a próxima lexislatura europea, obrigouno a procurar outra alianza.
14.-Por estes motivos, ante o Consello Nacional reclamei a reconsideración da posición da Comisión Executiva en funcións para evitar os prexuizos na próxima campaña eleitoral que se orixinarían tanto no caso da renuncia, contraria á presenza simbólica do nacionalismo galego no Parlamento Europeu no final desta lexislatura, como no caso de ser mantida por min a decisión persoal de ocupar o escano que me corresponde legal e politicamente.
15.-Sigo considerando que a Comisión Executiva tomou unha decisión moi prexudicial para o nacionalismo galego e para o que representa en Galiza. Estou en total desacordo con esa decisión. Penso tamén, e teño abondas razóns obxectivas para facelo así, que na decisión tomada e na forma de facelo influi determinantemente o feito de que o candidato son eu, que defendo e partillo con compañeiras e compañeiros no BNG e muita xente na nación ideas diferentes e contraditorias coas da maioría actual na direción da organización.
16.-Ainda así, teño a intención de renunciar a acta de deputado que me corresponde no Parlamento Europeu.
17.-Non lle teño medo aos xustos conflitos mais, desexando uns bós resultados nas próximas eleicións , non quero que a miña presenza no Parlamento Europeu se relacione con nada do que suceda. Abonda co que xa pasou sen eu ter nada a ver. Depois de defender en 1999 a idea de o BNG apresentarse en solitario, en 2003 non pensaba repetir como candidato e así o anunciei na Comisión Executiva do BNG á que pertencía. Acabei aceitándoo. Faltaron 160 votos e fallaron muitos máis. Con todo, tiven o privilexio de ser deputado do BNG por Galiza na lexislatura 1999-2004 e teño tamén a experiencia excepcional de ter sido deputado eleito por unha semana no principio da lexislatura 2004-2009 e deputado virtual por uns días ao final da mesma. Debo agradecer o voto das mulleres e dos homes que o posibilitaron. Fica moito por facer.
Irán: Liberdade para Abbas Hakimzadeh! Liberdade para todos os prisioneiros políticos!
Iranian Workers' Solidarity Network
12 Abril 2009
Tras a liberación de Mohsen Hakimi e o segundo ataque contra os estudantes da Universidade Amir Kabir, a Rede de Solidariedade dos Traballadores Iranianos quere destacar o horrible trato que as forzas de seguridade do réxime iraniano están a propinar a Abbas Hakimzadeh para denunciar a continua represión que sofren traballadores, estudantes, mulleres, minorías nacionais e outros moitos sectores da sociedade iraniana. Abbas Hakimzadeh é un dos catro prisioneiros políticos cuxa situación fará pública a RSTI.
Abbas Hakimzadeh, membro do Consello Central da Oficina para a Promoción da Unidade (o grupo de estudantes prol reforma máis grande) e antigo membro da Sociedade Islámica da Universidade Amir Kabir, foi arrestado o 24 de febreiro. Axentes do Ministerio de Intelixencia arrestáronlle a el e a varios estudantes máis despois dalgúns ataques violentos e negáronse a responder as preguntas das familias acerca do seu estado e paradoiro.
En xuño de 2007 Abbas Hakimzadeh foi un dos dous estudantes da Universidade Amir Kabir (Politécnica de Teherán) que foron encarcerados na coñecida prisión Evin. O 13 de xuño un grupo de estudantes gritaba consignas como "Abaixo o ditador" e "Abaixo o despotismo", o que provocou unha reacción violenta por parte dos gardas da prisión. O virulento ataque deixou a Hakimzadeh en coma, tras ser golpeado polos gardas na tempa.
A crise na Universidade Amir Kabir comezou o 30 de abril de 2007, cando os estudantes publicaron unha revista que contiña artigos que os funcionarios da universidade consideraron insultos ao Islam.
Liberdade para Abbas Hakimzadeh!
Ferir a un é ferir a todos!
Liberdade para todos os prisioneiros políticos de Irán!
A UPG quere perpetuarse cun enroque político que ao cabo será a súa tumba. Agora ven de apadriñar a Guillerme Vázquez como verdadeiro gardián das esencias do marxismo leninismo, pero controlando baixo corda a Aymerich, ao que nos presentan como quintanista cando en realidade é tan radical e sumiso como o anterior. Só que de cara á galería, cando Carlos Aymerich trunfe, venderánnos a moto de que a UPG manda menos. Pero a “U” sigue chuchándolle o sangue ao BNG, no que se agocha camuflado o último partido comunista que con máis poder conta en toda Europa (alcaldías, concellerías, diputados a Cortes…). Calquera maña lles sirve para manter o seu férreo control sobre os demais nacionalistas que vexetan na Fronte, aos que acotío lles abren (ou pechan) os locais e lles acenden e controlan os ordenadores. A estas alturas deberían saber que a sociedade galega xa percibiu que debaixo da súa pel de ovella ocúltanse os mesmos que no seu programa político vixente falan duns inquietantes “principios científicos da prevención do delito e defensa racial…” (1) (1) http://www.uniondopovogalego.org/upg/Programa_Politico/Politico_Administrativas.htm
Un impresionante relato dun preso republicano galego no campo de concentración nazi de Mauthausen.
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O mar desde esa banda
Carlos Penela*
Na traxedia insondábel e metódica que, noite a noite, se larvaba na raíz dos homes, aquel silencio era o único que remitía ao mundo, aquela pulsión do silencio era o único que daba un pouso de verdade e fuxida na madrugada hórrida e sen alma dos barracóns. Concentrarse naquel silencio, nas esferas últimas do silencio, pois, era quizais o único que podía dar paso a certo xeito de serenidade e ésta, se cadra, a algún recordo menor, semellante a algo tépedo e familiar. Por iso, como un illote perdido nunha sordidez imensa, oceánica, o prisioneiro tentou lembrar un otro mar, outro horizonte lonxe da cotación infernal do Lager. Fechou os ollos con forza, apertouse a si mesmo como quen acouga o abalo dunha nave á deriva e bisbillotando un breve nome tentou lembrar...outro mar, o escorzo luminoso e fresco do seu mar cando rapaz, o tacto real e vivo, aquel, dos limos da ría mentras enredaba apañando ameixa e caramuxo coa mamá e a madriña, cos primos, cos seus, tan lonxe. Volveu repetir lento e fráxil, como se for algo moi valioso, aquel nome no idioma do seu mar e procurou formar así as imaxes de outrora, a xeira cansa dos veciños ao pé da praia, o regreso á tarde, os espellos tornasolados da beiramar. Cómo lle prestaban as cancións da madriña con aquela voz salgada e gasta, o brillo das patelas pesadas, cheas co xornal do día, as olladas piscas e paveras dos vellos, as carreiras cando ía facer os recados á tenda de coloniais. Daquela pensaba que o mundo sempre sería así, a roda lóxica das angueiras e os soños; cómo lle prestaba ficar deitado na duna quentiña, amodorrado logo da merenda, alí, aparvado ollando o ceu baixo e mol na cerna do verán, a pasaxe das gaivotas, sentindo a brisa mareira como unha certeza da infancia que sempre existiría. Enriba do seu camastro arfaba ennovelado, cos laios vidrados pola disentería, Marek, o militante de orixe polaca; estivera de voluntario no frente de Aragón e ás veces falaba con el nunha sorte de lingua franca, castrapa, apenas intelixíbel. El fora quen lle advertira do que realmente significaba aquel lugar durante a viaxe do traslado, durante aquela travesía alucinada por camiños de ferro que se prolongou varios días desde as terras altas de Francia. Contoullo para que fora endurecendo o seu ser, para que o fora tensando, para que a súa sombra non fora ferida tan rápido pola maré de frío e desolación que agardaba, á espreita, no Lager. Na xelatina pestilente en que se convertera o ar escuro do vagón podía distinguir outros rostros cheos de medo que aínda comprendían menos aquel relato, tamén cabezas que asentían de xeito febril perante as palabras de Marek, bocas entreabertas, manchadas polo destrozo da desgraza e o esgotamento. A burocracia da crueldade non axía de balde, o mozo polaco non se enganara. Desde os primeiros momentos comprendeu, como se algo vencera no seu interior de xeito miserábel, que era mellor dar os pasos que daba a maioría, levar ben visíbel o triángulo azul da chaqueta e non ollar nunca de frente aqueles rostros de papel (oficiais bradando cousas durísimas, executando á toa); por iso pensaba sempre nos contos de luces de ánimas das xuntanzas onda a madriña, cando fóra batía a galerna, para non sentir a tentación de cruzar o ollar con aquelas miradas acuosas, fantasmais dos SS. As vellas afirmaban que non había que mirar de frente aos defuntos porque, se non, a alma dun ficaba para sempre no seu feitizo e a vida baleirábase de nós. Por iso evitaba a atención dos capos, dos soldados ferrados con cans e trallas, para ficar desta banda das cousas, sobrevivindo cara adentro. Vira convois completos desaparecer no mesmo día en que chegaban ao Campo Central. O fervor ordenado e frío con que se mantiña aquela lei homicida puxérao a ramo da loucura; e con todo aínda estaba alí, con todo abocaba a vida como o fixera noutro tempo entre as liñas inimigas, entre as ráfagas de metralla, entre os días da derrota e o exilio. Era aínda moi novo, daquela non sabía máis que o peso dalgo novo que dicían era a esperanza e as leituras acendidas e atrapalladas dos boletíns atrasados que lle enviaban os da Célula. Rematara o seus cursos de torneiro naquela academia da capital e estaba á procura dun emprego estábel para axudar na casa. Un veciño da pensión, un viaxante do Levante moi mullereiro, faloulle duns talleres na súa cidade onde traballaba un curmán seu que estaban precisando persoal especializado. Non o pensou moito, mesmo fixo a metade da viaxe co fulano, escoitando recomendacións de fondas baratas e outros garitos naquela nova cidade. O mundo abríase nunha baralla insólita, infinita, e el quería estar alí, no medio do tremor, no medio dos días facéndose en si mesmos, avantando neles. Mais todo bulía xa como un avispeiro perigoso na cidade aquela…por horas medraba unha tensión cega e en varias ocasións mesmo dubidou do que estaba facendo. Pero, que podía acontecer? Eran os compañeiros outra vez a falar da esperanza, eran rapazas bonitas con pucha e palabras firmes, incendiarias...eran bandeirolas nas prazas, cancións a fío, noites de pándega e poemas nas tabernas. E alí vería estourar a Guerra. Alistouse a unha columna anarquista porque a moza pola que debecía militaba nela. Non era pouco. No marasmo dos días máis espesos do confronto, ela desapareceu sen dar sinal algún e entón foi cando decidiu fuxir a Barcelona, lonxe do desconcerto e a dor, das bombas, dos horrores. Achou unha cidade alucinada, dunha vitalidade malsá...nun pulo de sorte, cando a capitulación era cousa apenas xa de semanas, deu cuns tipos que o deixaron a uns quilómetros da fronteira...pagáralles co que, por primeira vez na súa vida, roubara. Como un animal encanallado, durmiu en refuxios de portos de montaña, rillando en códeas de pan duro e en frebas de touciño rancio. Deu tombos por cuadrillas de traballo, como peón, como xornaleiro, xunto con outros exilados, a carón de antigos lexionarios e exconvictos de mirada esguía. E pouco tempo despois, cando tentaba refacer as pezas fanadas da súa vida clandestina, nunha pensión suxa de Marsella soubo que a Guerra abrira outra fenda nas entrañas de Europa. Tamén nesa arriscaríao todo. Aos poucos situábase máis alá do frío e o tremor naquela noite de naufraxio; contodo, quería atinxir aínda o seu mar, as ondas rebuldeiras e calmas da baía, botar de canto os seixos contra a tona calmiza daquel mar e conseguir que desen cinco, seis, até sete ou oito chimpos rápidos...cómo lle prestaba a preguiza do mediodía na praia, o cheiro vivo das sardiñas grelladas baixo o emparrado, na casiña branca dos seus tíos, as risadas das mozas no baile da noite, os fogos do folión...A Marek baleirábaselle a vida no xergón de enriba, coitado, se cadra envenenárase con aquela observación de pedernal contra a que xa avisaban as vellas da súa aldea. A el non, a el non lle podía acontecer nada, aquilo só era frío, sempre se coidara de non pousar a mirada nos óculos tintados do terríbel Obersturmführer, de picar sen pausa no pedregullo, de esquecer as chagas que lle trababan os membros como farpas de fósforo...por iso, aquilo só era frío, colléralle o frío, como dicía a madriña, iso era todo., mais con aquel ponche quente de leite e ovo todo sanaba, só tiña que dormir ben tapado polo agocho dos cobertores e botar a febre suando...dormiría tanto que sentiría logo febleza no corpo todo e acordaría coa luz clara do novo día a perfillar siluetas contra as rendas das cortinas...cómo lle prestaba entón fechar os ollos e intuir a orixe daquelas voces que ecoaban desde o patio, sentir os pasos suaves da irmá maior a traerlle o pratiño de caldo limpo e a pavía fresca...non, nada lle podía acontecer, só era frío e devagar el xa estaba máis alá do frío porque agora estaba entrando na boca da ría, bogando na “Aurora”, na dorna do seu tío, que ía farta e brillante de camarón, de lula, de martiños, que ía tan farta que se cadra podería mesmo afundir antes de chegar á outra banda...escoitaba agora dos beizos de Marek aquela ladaíña, de novo aquel rezo nunha lingua rara e fermosa que non era a da misa do domingo, a mesma pregaria que compartillaran axeonllados cinco homes de nacións diferentes (tres gregos de Thesalónica, o estudante húngaro e un señor moi alto que dicía ter sido actor en Berlín), antes dun mallar de culatas e varios tiros de graza do Obersturmführer, como cuspes negros, dar cabo de vez do seu alento humillado. Fixéranlles presenciar toda aquela encenación obscena da execución, escoitar logo as advertencias histéricas do oficial que descobrira os homes tentando fuxir, recoller a masa dos corpos desfigurados. Xa non quedaba moito para chegar á bocana da ría, pero o mar estaba a virar moi picado, cunha marexada traicioneira...tiñan que bulir, remontar os cons e atinxir a outra banda, o ceu cubrírase de cores aceiradas e zoaba un vento que non era de verán...comezara a chviñar e a dorna semellaba non dar termado xa co peso dos canastos a rebordar de peixe fresco... tiveron medo, polo ceu cruzaban perdidas aves grasnando e a serea dun barco pequeneiro resoprou ao lonxe como un presaxio... ou sería a voz de Marek? Ésta convertérase nun asobío rouco, perdido nas tábuas de enriba... xa non daba apalpado nada co frío que lle entrara no sámago do corpo... a mamá tería un tazón de sopa recén feita para eles, poríase ben contenta por aquela xornada tan boa...había que alcanzar a praia como fose...tiveron medo...o volume da dorna alastrábase ferida entre aquelas ondas bravas... só era frío, frío e un mar alleo de lamentos, a nave terminal, sen anxo, dos barracóns... rompera a chover con máis forza e as batidas do mar mantíñaos anicados co medo...e entón souberon que non chegarían nunca á outra beira...cunha certeza ameazante, definitiva, souberon que aquela tarde non chegarían á marxe da costa...e perdido, perdido nese frío, decatouse ao fin, como nunha iluminación tremente, que a súa voz se afundiría tamén coa do mozo Marek, que ningún dos dous chegaría ao perfil gañado doutros días, doutros abrentes...porque, se cadra, naquela noite non loitaban pola vida nos lombos feros do mar de Noia, porque se cadra aquilo chamábase en verdade Gusen-Mauthausen e o mar desde esa banda non era máis ca un país descoñecido e morto. Coda:
Entre 1940 e 1945 perto de douscentos exilados galegos foron deportados desde Francia a campos concentracionarios nazis: Dachau, Bergen-Belsen, Mauthausen...foi sobre todo neste último e nos seus anexos de Hartheim e Gusen onde pereceron máis da metade deles. Estímase que, entre xaneiro do 41 e marzo do 42, uns setenta e seis destes cidadáns foron directamente asasinados por diferentes métodos, naquela imensa industria nazi de eliminación; así por exemplo, dezaoito deles foron gaseados no campo satélite de Hartheim antes citado. A biografía resumida neste relato breve, ainda que ficticia, quixera testemuñar como recordatorio necesario a noite dun prisioneiro calquera sen nome, a súa ensoñación última do mar, noite e ensoñación que ben puideron ser, talvez, as dalgún daqueles outros galegos devorados polo deserto negro e real dos KZ. Carlos Penela é escritor (Vigo 1975). Licenciado en Filoloxía galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela-USC. Reside en Viena. Obtivo o Premio Espiral Maior de Poesía (1997), o Premio Eusebio Lorenzo Baleirón (2000) o Premio Esquío de poesía (2004). En 2007 gaña o Premio de Poesía Caixanova-Pen Clube coa obra Sombras, rosas, sombras. Mañá de Sábado
Editorial Toxosoutos (2008)
ISBN 13:978–84–96673-61-8
O estanque do BNG
Manoel Santos
A desfeita electoral do BNG non me sorprendeu tanto como a torpeza do PSdeG, que nin con tan millonarias siglas, que traballan por si soas, foi quen de soster o goberno. Mais os seus efectos para a malpocada identidade do país serán, de seguro, moito máis graves.A sucursal galega de Ferraz irase recuperando aos poucos apoiada no xigantesco aparato estatal, tanto máis axiña como se decate de que a opción Pachi Vázquez -causante de moitas das mobilizacións sociais que nos dous últimos anos foron minando o bipartito- é un mal parche. O dos nacionalistas é outra cousa. A sangría de escanos semella non ter paranza e fala dunha realidade que moitos non quixeron ver. Accedérase ao poder, si, mais cunha notábel perda de actas -de 17 a 13- que anunciaba dende había anos que as cousas non ían ben. Era un vivir no autoengano, se cadra propio da cegueira que produce o poder. Se o proxecto con Beiras estaba estancado, como dicían daquela, con Quintana e a UPG afogou no estanque. Centos de análises falan estes días das causas do ridículo electoral-gobernamental do BNG, e moitas auguran un futuro ben escuro para a fronte. No entanto, poucas conclúen que iso é o de menos. Aferrarse a unha marca ou unhas siglas non parece ter sentido cando o que realmente periga no país non é a organización do BNG, que ao cabo só é un instrumento, senón o proxecto que abandeirou o BNG, imprescindíbel para a supervivencia dos sinais identitarios -e até etnomentais- que nos definen como pobo. Hai tres destas análises, moi estendidas entre os cegos xestores da derrota, nas que un non pode coincidir. Primeiramente, falar dos efectos da crise parece máis ca nada unha mala desculpa. Considerar que o pobo ten tan pouca capacidade de análise como para pensar que o bipartito é o causante da crise e que o PP a vai resolver é desprezar o bo sentido das xentes da nación. En segundo lugar, ese "non fomos quen de transmitir á sociedade o labor de goberno" ao que se alude sempre dende o BNG para xustificar fracasos, non parece moi realista. Ao meu xuízo aconteceu exactamente o contrario. óubose transmitir e moi ben, mais non era ese o camiño desexado polas bases, foran estas militantes ou non. Alguén pensou que se podía producir o cambio sen cambiar, e ninguén reparou en que o primeiro que había que facer era retirar as tropas de Iraq e pechar Guantánamo.
Terceira análise. É esa que fala da excesiva crítica á que as bases da esquerda sempre someten a quen levan ao poder. A esquerda, deberiámolo saber, é crítica por definición, certo é, pero tanto máis como se sinta apartada dos proxectos que emprende. Porque un proxecto como o do BNG non pertence a quen dirixe a organización. Naceu do pobo, sen apoio empresarial, nin burgués, nin mediático, e no pobo cómpre que resida. Ese "de costas ao pobo" do que tanto se fala. Ese foi o motivo de máis peso. E as desculpas que o Beiras esixiu o mércores de cara aos movementos sociais un paso imprescindíbel, mais non único, para colmatar o estanque.