dedoscomovermes


[roubo o nome de um poema de marilar aleixandre]
os dedoscomovermes ceivam o roupeiro de todos os casulos que acumulam de tempos, algo cheirosos a humidade. os dedoscomovermes depositam tais casulos nesta pota de água a ferver, matando a crisálida para nom rachar o fio de palavras. só assim poderám urdir novas tapeçarias.



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casulo 61. sabucedo.



Canto um mar
que nom possuo
umhas águas que nom tenho
rapariga que som de terra adentro
mocinha da montanha / montanhesa.

Deveria cantar
fragas e veigas
encostas e abas de montes pardos
os cúmios que encirram horizontes
domeados como bestas e rapados.

Deveria cantar
o som do vento
entremetido entre árvores e gestas
e nom a brisa azul que arrinca as velas
do cerne de si mesmas e das conchas.

Esse ar mareiro
que canto
esse ar que canto e desconheço.
Comentários (1) - Categoria: Geral - Publicado o 04-07-2008 19:17
# Ligaçom permanente a este artigo
Chuza! Meneame del.icio.us digg Fresqui
casulo 60. leixaprém

ouh a aldeia
fragrâncias a favos de mel alentadas da janela

[silo estrume poço negro rebordante]


ouh a aldeia
vacas a pastejar

[suíças leiteiras milheiros de litros nos tetos]


ouh a aldeia
caminhar no lusco-fusco numha penumbra de vagalumes

[fios eléctricos céu de antenas virotes no horizonte]


ouh a aldeia
vacas a pastejar na chouça

[fertilizantes fitosanitários encefalopatia espongiforme]


ouh a aldeia
noites de invernada no rexo escano da lareira

[soidade na casa pelejas por marcos calefacçom central]


ouh a aldeia
vacas lentas a pastejar na chouça

[nom / já nom restam / quota láctea modernizaçom do agro]


ouh a aldeia
ir aos grilos enrestrar amoras entre o milho e o centeio

[crianças na vila xadrez informática nataçom]


ouh a aldeia
lentas vacas a pastejar na verdura da chouça

[que nom / que já nom há
que som selecionadas no embriom
sem semental boi ao que enjugar-se
que mudam a marquesa por fanny
a ruiva marela por pintada
que vivem estabuladas
longe da corte que quece a casa
sem gastar coxas na passeada
que comem proteínas descompostas
rapazes alimentadas de si próprias
que nom as toca mao mungideira
e leiteiam com eléctricas descargas
que recibem no matadoiro
com perfecçom cirúrgica
a morte]


e como as vacas ouh a aldeia

o desenho é de madeingaliza. o poema inspirador também.
Comentários (0) - Categoria: Geral - Publicado o 18-06-2008 15:42
# Ligaçom permanente a este artigo
Chuza! Meneame del.icio.us digg Fresqui
casulo 59. do extravio.


Eu som o resto o cascalho
deste naufrágio universal
a última quebra
abandonada por aqueles
mareantes
que escolhem afogar
eles mesmos entupindo as ventas
que recusam dar braçadas
comigo até o findeterra.

e fico só
sentada na areia
estonteada sacudindo argaços.

Eu som a sobra o resíduo
desta fugida deste degredo
a cadela doente
desamparada por aqueles
respeitáveis
que escolheu de fogar
acovilhada na gaiva da estrada
que ladra à nada ao vento
que linda o atropelho a morte lenta.

e fico só
lambendo feridas
de patas pousadas no asfalto.
a foto tireina de aqui
Comentários (0) - Categoria: Geral - Publicado o 12-06-2008 16:11
# Ligaçom permanente a este artigo
Chuza! Meneame del.icio.us digg Fresqui
casulo 58. sindicalista


fundo desde já o sindicato das eiras
das mulheres muitas e sem nome
que lavram o quotidiano
da paisagem

que tendem a roupa mais branca
nas traseiras da casa
que limpam cozem escabecham
sardinhas colhidas no mar
que tecem panos lilás com restos
da ventura de outros

costura das eiras cerzindo na noite
leite das eiras anunciando o almoço
ramo das eiras lavando lascívias

eiras que me acompanham
e para quem reclamo
o cumprimento
deste convénio colectivo:

que quero que guardem um nome
no rueiro da cidade
que quero que desfrutem
um incremento percentual
de sombra nos bancos da alameda
que sentem a descansar
que quero lhe computem para a antigüidade
as estrias cavadas en cada gravidez
que quero que tenham um feriado
que seja domingo sem cozinha nem vassoira
que quero a contrataçom indefinida
da dignidade arrebatada

o diálogo é possível.
também a greve.
Comentários (1) - Categoria: Geral - Publicado o 03-06-2008 21:22
# Ligaçom permanente a este artigo
Chuza! Meneame del.icio.us digg Fresqui
casulo 57. história

no início foi a palavra.

seguírom-lhe lume e conversa
vasilha que traz água guarda grão
agulha que tece e rejunta feridas.

só depois chegárom coitelos
machadas lanças espingardas
bestas fusís bombas em ácio.

só depois.
Comentários (1) - Categoria: Geral - Publicado o 19-05-2008 22:39
# Ligaçom permanente a este artigo
Chuza! Meneame del.icio.us digg Fresqui
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