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| casulo 71. esconderijo |
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quigem vestir a cidade
e a cidade estava encoira
privada de todo vestuário
nom puidem ocultar-me
no quebradiço reflexo
das montras das poças de água na pracinha
das fachadas transparentes de prédios altos
como passaros sem ninho.
nom puidem pendurar os meus medos
dos faróis dos guindastres de novas construçons
da fiambreira com sanduíche do alvanel no nono andar
das astes sem bandeira dos edifícios oficiais.
nom puidem cobrir a minha mudez
com balbordos de coches de linha
martelos hidráulicos sereias de alarma
com o ar comprimido em umha e todas
as laringes desguarnecidas
nom puidem envolver o meu corpo
espido nu acristalado
entre as gentes que iam e vinham
de semáforo a semáforo
do passeio da rua ao quase atropelho
verde ámbar corre que vira encarnado
nom puidem arroupar-me
nos vidros estilhaçados
nos automóveis oxidados
nos contentores arrombados
nos muros pespontados
por fermosas granadas de mao.
passei frio toda a vida.
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| casulo 70. estévez/magritte |
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| casulo 69. rosinha dos parques |
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pensas na singer nas encargas
pensas na ceia por fazer
pensas que amanhá ainda é outro dia
sentas e escuitas vozes
agulhas cravadas como gritos
nos dedos nos olhos nas tempas
amarras-te ao bolso aferras-te a nada
costuras a um tempo pesadelos e sonhos
nom é protesto nom é um gesto
de raiva rebeldia
é apenas que estás cansa
tam cansa. |
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| casulo 68. petróglifo |
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para que cinzelar palavras
se nom restará quem as leia:
para vós
umha espiral de serpes cervos bestas
sobre a que voem
as pegas os minhatos / a pomba brava.
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| casulo 67. patchwork |
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afasto o labor como paisagem
e descobro a minha história
agulha que entretece os pontos. |
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